domingo, 6 de junho de 2010

Crônica de Affonso Romano de Sant'Anna citando o conto "A omoplata"

Crônica de Affonso Romano de sant'Anna em qu cita o conto "A omoplata', que está no livro Eros resoluto


SEXO, FACA E MORTE


(CRÔNICA) PostadA por Affonso Romano de Sant'Anna, em 05/06/2010, às 23:25
LINK: http://www.affonsoromano.com.br/blog/index.php




Há alguns anos o diretor de teatro, Luiz Antônio Martinez Correia (irmão de José Celso), que morava aqui perto de minha casa, em Ipanema, foi assassinado com facadas.
Há alguns anos, Aparício Basílio, artista e amigo, conhecidíssima figura do soçaite de Rio e São Paulo foi assassinado da mesma forma em São Paulo.
Há alguns anos, meu amigo Almir Brunetti, também morreu esfaqueado em Brasília, Conheci-o primeiro em New Orleans, onde ele era professor, e depois o revi várias vezes na Universidade de Brasília e no Rio.
Com algumas variantes, ocorre-me a lembrança do memorialista Pedro Nava, do editor Emanuel Brasil e do meu aluno Maurício que escreveu uma tese sobre "O duplo".
Esta semana morreu esfaqueado em Curitiba o escritor Wilson Bueno, que também conheci. Ele é autor de alguns livros instigantes, dirigiu o jornal "Nicolau" e escreveu um livro prevendo a futura mistura do português e do espanhol.
Faca, sexo e morte.
Que estranha atração imanta essas palavras e estraçalha vidas?
Que percepção patética teve Freud quando decifrou alguns dos símbolos que organizam nossas pulsões?
Pois há alguns meses li um conto de Marcus Vinícius Rodrigues intitulado "A Omoplata" e fiquei impressionado, impressionadíssimo. É um dos mais tocantes e bem escritos textos sobre essa nebulosa margem entre o crime e o amor, entre o desejo e o perigo.
Eu havia conhecido Marcus Vinícius há uns dois anos quando fizemos, com outros escritores, uma série de conferências no interior da Bahia. Mas só vim recentemente a ler aquele conto sobre a relação erótica entre um homem e um "menino". Semana passada, por coincidência, em Salvador ele assistia a uma palestra minha e me deu esse conto publicado num livrinho "Eros Resoluto" (Ed.Cartas Baianas).
O conto, como uma navalhada na carne, é de uma precisão fatal. Começa com uma indagação: "E essa cicatriz?". E faz uma pequena descrição de uma cicatriz que um dos amantes tem na omoplata. "Ele passou a mão pela omoplata esquerda do outro. Era um risco em diagonal. Começava perto do ombro, o esquerdo, e ia descendo e se aproximando da coluna. Ele estava deitado de costas na cama. O outro, de bruços sobre ele, as pernas sobre seu ombro direito, abraçado em suas pernas. Nus. Ele acariciava o corpo do outro, as coxas, a bunda, as costas, numa lenta preguiça.
-Parece que lhe arrancaram uma asa".
E o conto prossegue numa atmosfera ambígua, difusa em que sexo, ameaça e perigo se atraem.
A cicatriz parece feita com faca. É uma sugestão. O texto é cortante. O menino parecia um anjo e um anjo perverso. Corpos e mentiras se entrelaçam. A cicatriz lembrava corte de faca, mas podia ser o esforço para se implantar ali uma asa de anjo. Tudo era falso e verdadeiro: "encontrado na rua, um menino que poderia ser um assaltante, tão falsa aquela história do colégio de freiras" que teria originado a cicatriz.
E a história vai para seu desfecho trágico, não narrado diretamente, mas sutil e inteligentemente sugerido. Depois de diálogos, brincadeiras, ameaças veladas e declarações de amor, o personagem dirige-se à cozinha onde nota a ausência de uma faca. "Na ordem absoluta havia apenas uma falha: a gaveta de talheres imperceptivelmente entreaberta. Um alarme estourou na sua cabeça. Ele não abriu a gaveta, mas o que não via se mostrava nítido em seus olhos. Parecia tão claro. Todas as cenas voltaram como um relâmpago. As conversas. Tudo em velocidade, até um momento se fixar. O sorriso do menino tilintando atrás de uma frase:
-Quem te salva?
Ele lembrou. Num instante rápido, quis que nada disto tivesse acontecido, queria não ter se deixado levar por... Devia ter tomado mais cuidado. Queria retroceder, escapar, mas tinha ido longe demais, já estavam num ponto em que não se pode mais voltar".

(*) Estado de Minas/ Correio Braziliense


2 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Merecido. Sou sua fã faz tempo.

Mai disse...

É tudo isto e para além, a sensação que nos causa.
Merecido destaque, Marcus.

ABraços