domingo, 9 de junho de 2013

Cada dia sobre a terra: terça-feira




TERÇA-FEIRA


Os soldados marchavam em fila indiana pela via exclusiva para ônibus, mais alta que o nível da avenida, e usavam as fardas típicas da Tropa de Choque, com escudos e cassetetes. Já se aproximavam da estação de ônibus do Iguatemi, quando começou o coro: marcha soldado, cabeça de papel. Se não marchar direito, vai preso pro quartel... Um coro de adolescentes recebia com palmas os soldados. Eles não vieram de carro até ali porque todo o trânsito da região estava parado. Os estudantes tinham fechado a ligação entre a região do Iguatemi e a Avenida Paralela. Com cartazes pedindo a diminuição do valor das passagens de ônibus, eles invadiram as ruas e bloquearam o trânsito. Eram muitos e deitaram no chão, fizeram correntes humanas de braços dados, dançaram cantando músicas de roda, como crianças, e, agora, cantava para os soldados que chegavam. Tinha sido assim por cinco dias, desde que os protestos começaram, mal a nova tarifa foi anunciada.
Antônio se lembrava da primeira reunião no grêmio, os colegas falando em ir pra rua protestar, uma grande passeata até a prefeitura ou para a estação da Lapa, até que alguém teve a ideia de começar ali mesmo em frente à escola. Fechar o trânsito, parar tudo. Um grupo de alunos mais velhos tomou a frente e fechou a rua. Antônio os acompanhou, mas não se pode dizer que fazia parte do grupo. Acompanhava. Ia pelas beiradas, seguia. Foi assim que ficou na calçada, bem no meio fio, de onde seguia os gritos dos outros, as palmas e as músicas. Mesmo com tudo parado, ele não ultrapassava aquela linha que separava o lugar dos pedestres do lugar dos carros. Não podia avançar. Não se sentia capaz de mais um passo, de seguir além daquele ponto.
— Você não vai pro meio?
Lúcia, a Lucinha, lhe chamava. Ela só agora tinha chegado e já se entregava à manifestação, uma coragem sem estratégias. Apenas ia na corrente de colegas, dentro. Seguia e guiava. Chamava com as mãos o amigo de infância, parou até um instante para esperar, mas logo foi levada pelos outros que a abraçavam e sumiu-se no meio de todos.
Antônio ficou no meio fio durante toda a manifestação, até que a tarde acabasse e o cansaço se intrometesse na vontade dos colegas. Era, também, hora de voltar para casa. Aquela rebeldia toda limitada a uma tarde. Rebeldias vespertinas. Já no caminho de volta, eles ficaram sabendo que por toda a cidade, naquele dia, tinha acontecido algo parecido. Os estudantes tomavam as ruas e paravam os carros.
— Mas nós fizemos primeiro, disse Júlio, o aluno do terceiro ano.
Antônio olhava admirado o colega mais velho. Ele já ia sair do colégio e já trabalhava de manhã na lojinha do pai. Era um adulto. Antônio tinha acabado de chegar ao ensino médio. Estava no primeiro ano, mas ainda se sentia um menino de ginásio. Ainda não tinha dado o esticão de que sua avó tanto falava.
— Daqui a pouco esse menino dá um salto e fica maior que o pai.
Nessas horas, seu pai se enchia de orgulho antecipado
— A molecada de hoje cresce mais rápido. Também, comendo com comem!
 Dizia isso e botava seu quepe de militar na cabeça do menino, enfiando de propósito até cobrir os olhos do garoto para depois sacudir a cabeça. Era o gesto máximo de carinho que podia fazer, agora que o filho estava mais crescido. Era um homem, ele dizia, e homem não abraça. Nem sempre foi assim. Quando criança, o pai o carregava para todo canto, no colo ou debaixo do braço como se fosse um embrulho, ou nos ombros. Antônio gostava de ficar assim mais alto que todo mundo. Nos ombros do pai estava protegido e podia roubar os bonés dos irmãos mais velhos.
— Deixa seu irmão. Ele é criança.
Era só isso que ele falava quando os irmãos vinham tentar tomar os bonés de volta ou quando tentavam revidar. E ele roubava o boné de um dos irmãos e passava o dia inteiro tentando equilibrar na cabeça, ainda pequena. A todo momento ele lhe caía nos olhos. Ficava assim até o irmão conseguir tomar de volta. No dia seguinte, tudo de novo.
Quando os irmãos resolveram esconder os bonés no alto do guarda-roupa, o pequeno Antônio não teve medos. Subiu pelo beliche e de lá saltou para o alto do móvel. Nada o impediu de seguir seu desejo e ter o que queria. Lá em cima, deu-se conta de que não saberia descer. Só então chamou a mãe. Naquele dia, ficou de castigo e finalmente foi proibido de pegar os bonés dos irmãos. Antônio lembra que chorou o dia inteiro, até vir o pai. Foi nesse dia que ele lhe ensinou a fazer chapéus de soldado, daqueles em que se dobra um papel várias vezes até formar um triângulo que se abre para colocar a cabeça. Um chapéu que, se você erra o caminho nas dobraduras, pode virar um barco. Era o que ele fazia nos dias de chuva. Abandonava os chapéus e fazia barquinhos para deixar correr nas águas que desciam a rua até lá embaixo na esquina que se dobrava pra esquerda e descia até a avenida. Mas todo tempo tinha um chapéu de jornal montado, uma espada de madeira e uma música na cabeça. Aquela mesma que os colegas cantavam agora em plena rua. Ele, na calçada de novo.
Tinha vindo com Lucinha que lhe carregava pra todo canto. No domingo ela tinha se enfiado em sua casa a tarde toda. Queria estudar com ele tirar dúvidas de matemática e de física. Por isso ficaram a tarde inteira no quarto.
— Quem inventou isso, meu Deus? Pra quê?
Ela suspirou e jogou o livro no colo de Antônio. Calmamente, ele explicou cada parte do problema e montou a fórmula como o professor tinha ensinado.
— Viu como é fácil?!
Ela colocou o dedo indicador na cabeça dele e ficou cutucando de leve.
— Tontinho, você é demais.
O dedo desceu para o pescoço, ainda cutucando levemente. Depois desceu mais ainda, até que ela passou a fazer cócegas no garoto.  Ele tentava se desvencilhar sem conseguir, ela pulou em cima dele e continuou na operação, ele segurou seus braços, mas ainda assim ela continuava. Apenas quando ele pulou fora da cama ela desistiu. Ele a sentia muito próxima nessas horas, uma proximidade que lembrava os tempos de criança, os dois juntos o tempo todo, como naquela foto da bacia, os dois bebês ainda, tomando banho juntos. Era assim que ele a via, sem mais que isso, ou assim pensava. Ficava tímido. Não sabia ao certo quando tinha deixado de ser extrovertido, alegre, corajoso. Sabia apenas que não queria falar com ela do que se passava com ele. As mudanças todas. Está ficando homem, dizia o pai, mas não sabia bem como fazer isso. Os irmãos, mais velhos, estavam sempre muito mais adiantados no crescimento. Eram adultos agora. O pai lhe cobrava uma namorada. Às vezes queria que ele não brincasse mais com a amiga, às vezes perguntava se estavam namorando. Namoro ou amizade? Perguntava. Homem não é amigo de mulher. Antônio nada dizia.
Lucinha, por outro lado, parecia que tinha nascido pra ser adulta. Quando começou a ter peito, não escondeu. Ela não escondia nada. Na aula de biologia foi a primeira a falar como seu corpo tina mudado. A desculpa era falar que sentia dores na barriga, cólicas.
— Isso é normal, professor? Só porque menstruei?
Ela não sentia nada. Queria apenas exibir a novidade, contar detalhes, mostrar que já era mulher. As outras meninas todas envergonhadas. Ele, envergonhado. Ainda mais quando diziam que ele era o namoradinho dela. Assim diziam as meninas, já os meninos, diante de seu jeito tímido, perguntavam como seu paia fazia.
— É namoro ou amizade?
Todas as insinuações feitas na simples frase.
Se ele fosse ainda criança, teria respondido com um pontapé para cada pergunta. Era muito brigão quando era pequeno. Valente. Gostava de brincar de guerra com os meninos da rua. Brigava com quem se metesse com ele. Viveu assim até que aos onze anos sua mãe resolveu lhe oferecer para apadrinhamento. Teria seu padrinho, senhor da guerra, para guiar seus impulsos, acalmar seus ânimos de brigar e protegê-lo dos inimigos que criava.
Foi levado à casa de uma vizinha do bairro, bem no fim de linha do Pernambués. A casa era no final de uma pequena avenida, numa encosta, uma casa normal. Abaixo da cozinha, como um porão, a mulher tinha um lugar em que guardava seus santos. Era como se fosse uma pequena casa com sala, quarto, banheiro e cozinha, tudo pequeno, espremido entre a casa grande em cima e um quintal que e descia a encosta. Dali se podia ver lá embaixo no vale uma horta verde, toda retinha entre as casas que rareavam no meio do mato. Antônio foi então oferecido ao santo, entre rezas e cantos e incensos. Em meio à cantoria, a velha senhora se debruçou sobre o menino. A voz tinha mudado, os olhos semicerrados sequer o viam. O abraço veio ríspido. Um abraço apertado em que lhe disse no ouvido uma série de coisas que o menino, assustado, não conseguiu lembrar mais depois que saiu dali. Não dormiu bem aquela noite, apavorado com as palavras. Vinha o sonho um homem alto, negro, mais alto e mais negro que o pai. Vinha nu.  O menino tentava ver seu rosto e não conseguia. A cabeça ficava distante, mais alta. Queria ver também no meio das pernas, mas sempre que fixava ali o olhar, sua vista escurecia e parecia que via um abismo, como o poço na casa da avó. Vinha a voz e repetia as palavras da velha, uma voz forte de homem e, então, o menino acordava.
Ficou assim um tempo, ouvindo em todo canto aquela voz. E era tão nítido o que ela dizia, tão claro como o sol, e quando acabava, já não conseguia repetir. Tinha a sensação de que a qualquer momento podia voltar toda a memória, tudo tão na ponta da língua, como o nome de um artista muito famoso que a gente esquece de repente. Algo tão perto e tão familiar e que não se pode alcançar. Era assim que se sentia sempre que estava na rua. Ouvia, entendia e não lembrava. Um dia, voltando da escola, viu-se, sem saber, no caminho contrário ao de casa. Não conseguiu compreender como tinha se distraído e seguido por ali.  Aconteceu como acontece às vezes com alguém que faz sempre o mesmo caminho e que, tendo de fazer um caminho diferente, se distrai e faz o caminho habitual, só se dando conta quando já vai longe no erro. Assim aconteceu com ele, mas ao contrário.
O que pode pensar uma criança que não sabe aonde vai, que mira um lugar a seguir e, distraído, aparece em outra rua ou numa praça longe de casa? Antônio ficou com medo de si mesmo, de ser levado a algum lugar perigoso. Não sabia o que fazer com aquilo que lhe acontecia. Retraiu-se. De menino levado virou um adolescente retraído. Aos poucos foi se afastando do pai. Não era mais a criança dos afagos e não virou o companheiro que ele esperava que surgisse com a idade. O filho caminhou para o outro lado. Abandonou a rua e trancou-se no quarto, refugiou-se nos livros da escola, esses mesmos livros que Lucinha lhe jogava no colo, como quem joga uma isca ao peixe. Queria tê-lo novamente como companheiro de brinquedos e aventuras, queria, talvez, experimentar tê-lo como namorado, mas ele se esquivava de todas as suas investidas. Não se afastava inteiramente, apenas mantinha-se a uma distância segura, ainda o amigo, mas atrás, seguindo-a de perto. Foi assim que ele a seguiu aquela terça-feira à tarde pela ladeira que liga o fim de linha do bairro ao Iguatemi. Os colegas da escola queriam parar o trânsito lá embaixo, por onde todo mundo passava, onde todo mundo via.
Lucinha lhe chamou decidida. Queria ir, mas queria ir com ele. Que graça tinha tudo aquilo sem ele ao lado. Ele ainda tentou argumentar sobre o risco. O movimento tinha crescido tanto, na televisão só se falava em botar a polícia para dispersar os estudantes. Tinha isolado o centro, a estação da Lapa, mas de nada adiantou. Era difícil prever de onde viria um novo bloqueio. A polícia não dava conta, era verdade, mas se chegasse para abrir caminho, não ia parar antes de conseguir. Não ia acabar bem
— Vai todo mundo preso. E daí?
— Daí que eles podem nem prender a gente. Podem bater.
Ela perguntou se ele tinha medo. Com a pergunta vinha um olhar duro que o imprensava numa parede imaginária. Ele precisou dizer que não, que não tinha medo, que não era de ter medo. Disse rápido, sem pensar muito naquilo que dizia para não se trair. Se pensasse que tinha de fingir que acreditava no que dizia, não ia conseguir.  Disse não e com esse não liberou um sim apara Lucinha, um sim que parecia maior que o momento que viviam. Ela sorriu e o agarrou pelo braço. Sentia-se liberada para tudo. Tinha recebido um sim, uma permissão que há tempos não recebia do amigo de infância, do namorado que queria.
Os estudante já estavam todos reunidos na esquina do posto de saúde. Dali desceriam a ladeira em direção ao Iguatemi, iam decididos, em algazarra completa. Quando passaram pelos motéis lá embaixo, os meninos resolveram puxar algumas meninas como se fossem entrar com elas recepção a dentro. Algumas brincavam também e iam até a porta, outras fugiam envergonhadas. Antônio só olhou para Lucinha e riu.
— E aí, Tontinho?! Não me convida?
Ele ficou envergonhado. O rosto todo vermelho. O corpo suava dizer que não pensava nessas coisas não era verdade. Pensava. Mas com Lucinha os pensamentos eram confusos. Não sabia bem o que sentir. Não olhava para ela como olhava para as outras meninas, não fantasiava sexo com ela, mas não podia se imaginar sem ela. Era como se ela fosse sagrada. Para responder à brincadeira dela, brincou também.
— Você merece coisa melhor, suíte de luxo.
— Hum! Tô podendo!
Ela riu e fez um ar orgulhoso. Nesse momento outras meninas a levaram. Formou-se um grupo de meninas que corria na frente para fugir dos meninos. Elas faziam sua parte no jogo.
A frase de Antônio foi a melhor resposta que ele podia ter dado a si mesmo. Coisa melhor. Era de outra natureza o que sentia por Lucinha, algo ainda mais difícil do que o que tinha sido despertado nele com a idade. Ainda era preciso entender, mas gostava de saber que tinha isso dentro de si.
Correu com os colegas atrás das meninas, passaram pela madeireira, foram até a rodoviária e alcançaram a passarela. Estavam perto.  Alguns deles queriam parar o trânsito ali mesmo.
— Aqui não. Do lado de lá, em frente ao shopping.
Alguém falou com voz de comando. Eles atravessaram a passarela já cantando palavras de ordem. Não havia nenhum carro da polícia à vista. Desceram em frente ao shopping e se posicionaram bem embaixo da passarela. Ali é que começaram a invadir a rua. Quando o sinal fechou lá adiante, aproveitaram para marchar para o meio, todos de mão dadas. Gritavam contra a tarifa alta, cantavam, dançavam. O trânsito aguardava. Os carros aguardavam. A eles se juntaram outros estudantes, vindos não se sabe de onde. Alguém teve a ideia de fazer brincadeiras de roda. Ciranda, cirandinha... deram-se as mãos e rodaram. Depois, ainda em roda, soltaram as mãos e cantaram sambas... quem entrou na roda... Lucinha foi a primeira a ir para o centro. Sambava com passinhos miudinhos para trás, segurava com as mãos uma saia imaginária e girava. Na hora de chamar outro para a roda, procurou Antônio, seu Tontinho. Ele podia vê-la de longe em sua busca. Ela desistiu e chamou uma amiga. Voltou ao círculo e continuou batendo palmas. Antônio não estava com eles. Continuava no meio fio, na fronteira dos pedestres. Apenas observava toda a algazarra. Não sabia como atravessar aquela barreira.
Foi então que vieram os soldados marchando pela via exclusiva dos ônibus, vieram com seus cassetetes, que batiam nos escudos em ritmo marcial, um sincopado ensurdecedor, como que anunciando o que fariam se não fossem obedecidos. Os estudantes, porém, começaram a cantar e bater palmas: marcha soldado, cabeça de papel. Se não marchar direito, vai preso pro quartel... Cantavam cada vez mais alto, abafando o som dos escudos. Ficaram assim alguns minutos, num duelo de sons, até que os soldados pararam de bater os cassetetes. Uma ordem do comandante e eles desceram e se enfileiraram em frente aos carros. Dava para ver que a ordem era dispersar todo mundo, liberar o trânsito. Um policial tentava se fazer ouvir pelos estudantes, mas eles continuavam a dançar e cantar. Foi nesse momento que uma moto passou entre os carros e avançou. Por uma brecha entre os soldados e os jovens, ela avançou. Ninguém pareceu perceber o que acontecia, apenas Antônio, de longe, parecia ver o que ia acontecer. A moto se lançava de encontro a Lucinha, que dançava distraída.
Neste momento, Antônio se lembrou da voz da velha senhora em seu ouvido, bem perto e sussurrado, o padrinho lhe prometendo estar sempre presente, ao seu lado, para a luta que viria. Sempre vem uma luta, meu filho, cada dia sobre a terra deve ser vencido como numa guerra. É preciso pisar firme, os pés sabem. Tudo voltava na lembrança do rapaz, as caminhadas perdidas, o chamado que ouvia. Sentiu nas pernas uma sensação que nunca tinha experimentado, uma calor, uma força nova, que o fez correr muito rápido. Saltou para além do meio fio sem mesmo pensar o que ia fazer. Ninguém percebeu bem que ele chegava, apenas viram que a moto caía no chão, tombada de lado, e rodopiava sem seu piloto. Ali, mais adiante, Antônio o segurava. Ninguém viu que ele tinha saltado sobre a moto, com um pé na roda dianteira desviou a direção, e ainda puxou o piloto. Com outro rumo, agora, a moto atingiu um policial nas pernas. Fez-se o caos. Os estudantes avançaram para a tropa com mochilas e cadernos. Os soldados só se defendiam, surpresos. Lucinha também avançou, mas foi impedia por Antônio que lhe segurou pelo braço e a arrastou para a calçada.
— Vai pra casa!
Ela quis responder, brigar, mas ele falava com uma voz firme, grossa, voz de adulto em comando.
— Vai!!!
Ela correu para a passarela. De lá, viu Antônio, seu Tontinho, voltando para a confusão. Ele não enfrentava a polícia, apenas tirava, um a um, seus colegas da briga. Arrastava pra longe, brigava, até batia, mas não deixava que voltassem. Ela viu ele fazer isso várias vezes, até que chegou mais policiais e os estudantes começaram a se dispersar. Antônio e seus amigos fugiram pulando as grades da via exclusiva para ônibus. Do alto, Lucinha seguia atrás deles, enquanto observava admirada como Antônio liderava o grupo, esperando que cada um saltasse as grades para só então seguir e avançar e escolher por onde ir e indicar aos outros e esperar todos passarem de novo. Ele guiava e protegia, à frente ou atrás, conforme sentia que devia ser. Quando ela chegou ao outro lado da passarela, ele estava esperando.
— Vamos!
Ele a pegou pela mão e começou a correr. Ela só podia acompanhar. De vez em quando, olhava para ele, que seguia sério, olhando para frente.
Antônio não sentia nada de especial, como se aquela explosão de seus músculos e de sua voz estivesse sempre ali. Não se sentia mais velho, mais forte ou adulto e podia até imaginar que aquilo era uma grande brincadeira e que usava um belo chapéu feito de papel de jornal.



domingo, 21 de abril de 2013

111



Chamas
nas grades
abertas.
Chamam-se
nomes
ao gritos.

111 nomes,
111 filhos.

Sem resposta.

In "Pequeno inventário das ausências". Salvador: Fundação casa de Jorge Amado, 2001.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ao leitor


Decide por mim esse verso,
que o dia se faz pressa.

Hesitar é interdito e
as horas reclamam passar.

Decide a rima, sentencia a métrica,
que não há mais o que eu possa.

Todo o poema implora
um leitor que o faça. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

O ESCRITOR É UM MENTIROSO


Eu queria falar das técnicas para prender o leitor, mas, enquanto abria o computador, o texto avançou na minha cabeça e acabei concluindo o que diz o título. Comecemos do começo:
 
 Ab ovo: Como agarrar um leitor.
 
 
Tenho refletido muito sobre esse conflito entre a experimentação da linguagem e a contação da história. Há uma preocupação muito grande com isso hoje em dia e aqui no Brasil principalmente. Temos uma tradição de uma linguagem bem cuidada e de se buscar experiências inovadoras. A sombra é muito grande e espessa sobre os novos escritores. Cito apenas três de nossos grandes: Machado, Rosa, Clarice.  Nossa medida de qualidade tem de se posicionar diante dessa régua impossível.
 
 
E, assim, muitos escritores se lançam na experimentação e esquece o leitor. Como todos sabem, apesar de termos esses grandes escritores, o país não foi treinado para lê-los. Há uma dificuldade generalizada para ler frases simples e diretas. As invencionices do escritores? Nem pensar.  
 
 
Então, é preciso pensar estratégias para agarrar o leitor no começo do texto.  Veja! Não digo seduzir. Digo agarrar, pelo cabelo, pelo pescoço, e conduzi-lo até a última página. Aí, sim, no meio do caminho, enlouquecer na linguagem.
 
 
A melhor técnica para fazer isso, na minha opinião, é a in media res (no meio das coisas). Aprendi essa técnica com lendo Lygia Fagundes Telles e foi Suênio campos de Lucena quem ma nomeou. É simples, começa-se do meio, do momento mais tenso, e retorna-se em flashback. Volta-se até o meio e caminha-se me velocidade para o final. A outra possibilidade é fazer do início: ab ovo (desde o ovo) ou ab initio. Nesse caso é preciso ter um bom começo.

 
Fiz in media res muitas vezes. Depois, por me dar conta de que fazia, forcei-me a não fazer. Nesse meu último livro (inédito), a maioria dos contos não usa a técnica. Eu estava pensando isso ali deitado, quando resolvi escrever sobre. Mas o pensamento andou e acabei me dando conta de que estava mentindo. Os contos estão na cronologia certa, mas o livro não. É um livro de contos que acompanha a vida de quatro ou cinco personagens. É um quase romance — tem protagonista e tudo, mas em forma de contos. Acontece que datei os contos, que vão de 1964 até 1978. E não é que eu começo em 1976? In media res.

Eu sou um mentiroso.
 
 
E já minto faz tempo.

No meu primeiro livrinho de contos, o 3 vestidos e meu corpo nu, também minto. Os 3 vestidos são contos inspirados/influenciados por escritoras. Há epígrafes explicitando. O quarto conto, A noite de cada um, faz as vezes do “corpo nu”, o escritor sem influências. Tudo mentira. É o conto mais intertextual: desde o título, “roubado” de Julien Green, que por sua vez se inspirou em um verso de Victor Hugo.

Literatura é um jogo de esconder. Queria muito saber como meus amigos escritores montam seus textos. O que está escondido nos bastidores.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO


Para Lygia Fagundes Telles

 

Pele impossível

que aprisiona hálitos,

criando provisórios claros.

Coesão flutuante e fluida,

Refletindo mil espaços.

 

Lagartos, gatos, ratos.

 

Uma mulher escrevendo

no olho verde e dourado

da estrutura improvável.

 

RODRIGUES, Marcus Vinícius. Pequeno inventário das ausências. Salvador: Fundação casa Jorge Amado, 2001

sábado, 9 de março de 2013

EUCARISTIA


Dissolve-se na
minha boca
o gosto.

Percorro contrito
o corpo.
Lambo, arranho, mordo
ombros,
peitos,
dorso.

E escorre-se você
em fluidos de gozo.

Corpo do meu corpo,
sangue do meu sangue.

Límpido,
lívido,
vívido,
líquido
santo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Zona de perigo


Há os que anseiam
e os que interpretam
os sensuais signos.
Há os que estão na zona de perigo.

Há os que esperam
e os que passeiam
seus latentes cios.
Há os que estão na zona de perigo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

COZINHA ÍNTIMA por Alex Simôes


Para Marcus Vinícius Rodrigues

tem um poema aqui dentro
que esqueci de lhe mostrar
espere só um momento
que vou lá dentro buscar

ele está em andamento
faz favor de não contar
pra ninguém do fazimento
pro bolo não desandar

peraí, que eu volto já
enquanto isso, o rebento,
todo acontecimento

vem quando tem de chegar
meu poema tem fermento
e a lua, pó de solar



Publicado em http://toobitornottoobit.blogspot.com.br/2012/09/cozinha-intima.html

Não deixem de visitar o blog Too bit  or not too bit de Alex Simões.  Você vai pirar na poesia deste rapaz, deste meu amigo, deste poeta único.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Do meu amor seus olhos


Direi do meu amor seus olhos
porque os vi primeiro quase que outros

em algo como um espelho, algo metálico.
Eles me olhavam fantasmas quase que mágicos,

eram dois e dourados na superfície prata,
fixos em mim, presos, como se guardas.

Eu o amei sem o ver inteiro: o meu amor,
naquele instante de fantasmagoria.

Direi do meu amor o que não era
sem jamais saber o que seria.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

INFINITO


INFINITO
Um poema por (e não para) Alex Simões

O meu quarto se abre em sacada
para um mar de janelas anônimas,
abertas, fechadas,
com luz ou sombra.
Cegas,
não me veem no meu quarto com sacada.
Ávidas de nudez,
minha nudez,
apenas me adivinham,
e eu, do meu vinho
já tomado,
estou também ávido, mas de mudez,
porque há muitas noites que te falo
de um infinito que não vês.

VERÃO NO AQUÁRIO




Era um aquário de fora o prédio
e suas janelas que não se abrem.

A natureza sufocava exposta
ao calor de si própria tarde.

Eu aqui respirava o gelo dos homens
liberto de todas as árvores.


Poema produzido para um exercício da oficina "Palavra a partir" de Angélica Freitas. É preciso dizer, porém, que eu não fiz o exercício direito

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Brutalmente Bruna





Brutalmente Bruna

Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar.
Bruna Lombardi

Flash!
Qual a pose que ficou?  Eu de olhos lânguidos pra ele? Eu de taça de champagne na mão? Podia ser whisky? Essa dor de cabeça é whisky, tenho certeza. Mas quando foi que eu desci do champagne protocolar para o porre? Quem mandou beber em público, sua alcoólatra, no meio de um monte de jornalistas? E olha que eles foram convidados. Nós não somos nada sem a imprensa, querida. Até vocês decidirem nos destruir, eu devia ter completado. Amanhã vai sair a pior foto no jornal. Nada da minha arte, só a fofoca. Você está namorando alguém? Eu ainda estou casada, querida. Ele está filmando no Xingu, um filme ma-ra-vi-lho-so, co-produção com a França, querida.
Flash!
Eu não vou te contar, querida, que acordei com seu flash nos meus olhos, quase cega, querida. Você não vai saber que eu não dormi em casa. Tá! Eu ainda não sei bem onde estou e nem quem é esse cara deitado na cama. Você ia gostar de me ver agora, de quatro, debaixo da cama, à caça de uma calcinha. Eu estava com uma, tenho certeza. A manchete podia ser assim: uma noite vadia com Bruna Bianchi. Muito literário pra você, não é? Você ia preferir algo mais direto nas bancas de revista: flagra! Bruna Bianchi pula a cerca. A foto de meu traseiro nu, mal coberto por esta camisa de homem. Não, querida. Esse gostinho eu não lhe dou. Pode falar mal de meus quadros, pode dizer que sou péssima atriz. Você não é crítica de arte mesmo. E novelas? Aquilo não é arte, é corrida de obstáculos. Como você explica sua arte? Você perguntou. Como você explica sua ignorância, meu bem? Eu não virei artista plástica do nada, benzinho. Você não sabe que eu fazia Belas Artes, quando aquele fotógrafo me descobriu?  O dinheiro era tão bom, entrei no mundo da moda. As novelas? Uma coisa leva à outra. Não! Isso não é meu eu interior. Minha arte pretende outra coisa. Nem pense que você vai fotografar minha alma. Contente-se com meu corpo. E não, eu não estou fazendo isso para aparecer. Se eu quisesse aparecer, seria melhor ter um câncer. Tão na moda, hoje em dia. O sucesso seria garantido. Atriz vence luta contra a doença. Eu, belíssima e orgulhosa com minha cabeça raspada, uma Nefertite vitoriosa. Tenho certeza que você ia escrever algo assim: o sofrimento deixou Bruna Bianchi mais próxima de sua personagem. Ela consegue viver a dor da heroína. Que dor? Pura técnica. Cristal chinês. As lágrimas falsas.
Flash!
Os quadros? Eu só pinto o que vejo. Por isso os cães de bocas ávidas, de olhos arregalados, brilhantes como o sol; os homens abobalhados, os mesmos olhos acesos. E os quadros só com olhos, dezenas de olhos, objetivas de câmeras, binóculos, isso não lhe lembra nada? Você ainda não se identificou, meu amor? Não entendeu nada, hein? Bote lá na sua manchete: Atriz impressiona em sua primeira exposição. Não foi isso que a TV mandou dizer? Enquanto eu estiver no ar, tenho imunidade diplomática. A TV não vai deixar nada me acontecer. Todos nós sabemos quanto vale o meu rosto. E a novela está nos seus momentos decisivos, audiência absoluta. Eu tão comportada. Já faz um tempo que não dou escândalo. Estou limpa, querida. Sem calcinha, na casa de um estranho, é verdade, mas você não tem provas. Vai sair uma foto dele me abraçando? O nome, a profissão. Modelo? Olhando daqui, pode ser. Tem estampa. Minha avó diria que ele tem apresentação, moço bonito. E tem tamanho, Vó. É magro. Deve ser mesmo modelo. Amanhã vai estar famoso. Eu sei, Vó, eu deveria me preservar mais. Vou tentar da próxima vez. Agora só me preocupa a calcinha que não acho. Isso eu aprendi, Vovó. Uma mulher não deve deixar vestígios. São nossas intimidades, minha neta. Mas como, Vozinha? Eu sou uma fábrica de pistas. Meu cabelo cai por onde passo. E essa tintura é única. Outro dia achei um fio na calcinha. Imagina quantos homens que apenas me cumprimentaram foram flagrados com cabelos meus na cueca. Esses fios são assim. Entram em tudo. Também sempre se solta um vidrilho do vestido. O batom, então? E os cheiros. Não dá pra recolher tudo isso. Pelo menos a calcinha! Eu sei,Vovó, eu sei. E se ele pegou de souvenir? Afinal, é uma calcinha de Bruna Bianchi. Um troféu! Ele tem de mostrar pro amigos. Não, não parece que seja isso. Eu devo ter perdido. A cueca dele está aqui, o nome da grife no cós. Ei, dela eu lembro saindo da calça, toda branquinha, embaixo da camisa transparente, a barriga absurdamente malhada, a virilha quase à mostra. Imprensa amada, Vovó querida, Bruna Bianchi é uma vadia. Está explicada a perdição em que me meti. Aquela saliência que começa na cintura e vai até lá embaixo, os pêlos começando discretamente, foi por ali, foi por ali ... Veio tudo como um flash. Eu gostaria de me justificar, sabe? Foi uma tentação audiovisual, como nos melhores métodos de aprender línguas. Tinha aquele corpo atrás da transparência e uma voz dizendo algo como puxa, é como se você colocasse um espelho na frente das pessoas que lhe rodeiam, os fãs, os jornalistas. Este é o mundo que você vê. Viu, Ricardo, eu lhe traí com alguém que entende minha arte, ao contrário de você. Tá, isso que ele disse tava no release que mandei pra imprensa, mas eu estava bêbada. E você? Você não pareceu capaz de tirar uma folga deste filme idiota para ser o par de sua esposa. Já está há três meses neste fim de mundo. Ciúmes das índias, eu?. Elas não me preocupam com seus peitos caídos, suas barrigas inchadas. Acho que nem se interessam por um branquelo como você. O que me preocupa são essas atrizinhas de quinta, fazendo papel de índias, os seios duros de silicone, lhe chamando para um mergulho no rio. Não me volte com doenças, Ricardo. Se voltar, que seja malária. Vou me deliciar com as febres de fim de tarde. Ah! Meu amor, o que você me faz fazer? Lembra quando nos conhecemos, eu já estava muito bêbada. Você disse alguma coisa que não entendi, mas terminou me chamando de docinho. Eu não sabia o que responder, nem sabia a pergunta, mas aquele docinho sussurrado no ouvido .. eu não sabia o que fazer e abri a blusa. Você deve ter me achado uma louca. Depois eu ia dizer: foi sem pensar. Ia dizer que foi você quem me tirou  a razão. Não foi nada disso. Eu apenas não sabia o que fazer. E uma mulher, assim perdida, assim sozinha numa noite mais triste que as outras, essa mulher, só porque não entendeu uma pergunta, é capaz de abrir a blusa, mostrar-se desafiadora. Foi só isso, Ricardo. Toda minha vida em suas mãos só porque você disse docinho no final de uma pergunta. Não sei se você queria ir ao banheiro ou se queria me pedir um beijo. Eu apenas abri a blusa e você ficou maravilhado com minha ousadia. Um botão pode decidir nossas vidas.
E agora, aqui estou eu neste chão de um apartamento estranho. Veja, vozinha, amigos jornalistas, registrem este momento. Podem fotografar. Eu não estou lá na melhor forma. Este camisão não me valoriza, estou com a maquiagem borrada, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de meu próximo projeto de teatro, um recital: Brutalmente Bruna. Eu completamente sem glamour, assim como estou agora. Sempre funciona. Se a ex-modelo se enfeia para o papel, já sobe de patamar, vira atriz. É o pedágio. Vou virar atriz, querida, e você vai ter de deixar suas ironias de lado nessa sua colunazinha de fofocas. Agora só vou aceitar críticas da Bárbara Heliodora, fofa. E eu também vou fazer o cenário e a luz. Veja essa fresta de sol sobre meus seios. Se eu me inclino pra frente, a luz ilumina meu rosto. Já dá uma chamadinha na TV, não é Ricardo. Sei, Vó. Pernas fechadas. Tenho de lembrar sempre de fechar as pernas na televisão. Mas eu vou usar calças. Uma mulher sempre está de pernas fechadas, minha neta, esteja usando o que for. Mesmo sem calcinhas, bêbada, usando só uma camisa de homem? Eu devia levantar e ir ao banheiro recompor este rosto. O que fazer sem maquiagem  na bolsa? Só um batom. Água e sabão. E se o batom é rosa, pode ser o blush  e a sombra. Uma mulher nunca deve estar inteiramente de cara limpa, principalmente nos momentos mais dramáticos. Esse prédio deve ter porteiro que certamente me conhece. Os porteiros conhecem todo mundo que é famoso. As revistas  têm sempre de passar por eles. E quando você está na novela ... Tenho de descer com toda a pose, roubar estes óculos do rapaz, esse dinheiro para o táxi. Melhor deixar um bilhete dizendo que peguei emprestado e vou devolver. Não. Nada de vestígios, não é Vó? Ele que pense o que quiser. Depois mando um pacote anônimo devolvendo tudo. Desfaz-se a impressão e ele vai ter certeza de que não é pra me procurar. Vou levar este casaco pra disfarçar o brilho do vestido. Estou uma gatuna. Se eu fosse uma princesa européia, ia ter um batalhão de assessores pra esconder meus deslizes. Um telefonema e o serviço secreto invadiria o apartamento, depois de minha discreta saída, e sumiria com todos os vestígios. Se o rapaz não colaborasse, jamais trabalharia neste país. Um caso de segurança nacional. Mas eu só tenho minha Vozinha pra zelar por mim e um marido ausente. Ricardo não está nem aí. Ele ia adorar me pegar no pulo. É muito difícil para uma mulher não ser uma princesa. A calcinha? Vejamos uma resposta. Voz natural, enfado: Nossa, ela marcava muito através do vestido. Tirei e joguei no banheiro da galeria. Lembra que Carmem Miranda fez isso uma vez? Eu não podia imaginar que existissem pessoas tão doentes como esse rapaz. Roubar a calcinha de uma atriz como eu. Certamente um fã, mas um fã muito doente. E eles leiloam de tudo nessa internet. Como as pessoas são solitárias hoje em dia. Esse rapaz certamente só que chamar atenção. Dada minha última entrevista, passo os olhos no apartamento. Simpático até. Desço pela escada os dezoito andares. Elevadores são perigosíssimos. Muita intimidade. É quase promíscuo. Lá pelo nono ouço uma ópera. Alguém ouve ópera de manhã cedo. Ainda bem que não moro aqui. Ópera? Eu quero a Gal aos berros, você me entende. A Gal rasgando a garganta. Saio sem olhar o porteiro na cara e caminho para uma rua transversal. Bairro agradável, nem estou longe do meu. Desvio do jornaleiro que abre sua banca, a rua deserta. Meus saltos são o único barulho nas pedras portuguesas. Não é tão fácil como estar numa passarela, mas coloco um pé em frente ao outro, ombros para trás, mãos nos bolsos do paletó, fixo o olhar num fotógrafo imaginário no horizonte e vou.
Flash!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Depois do baile verde




Depois do baile verde


"Quando bateu a porta atrás de si, 
rolaram pela escada algumas lantejoulas
verdes na mesma direção,
 como se quisessem alcançá-la."
Lygia Fagundes Telles

Os dedos percorreram o tecido verde jogado sobre a cômoda, numa lenta observação. A larga camisa era feita desse tecido sintético, imitando a leveza de uma seda, porém mais resistente. Os tons de verde brilhantes sobre um fundo multicor, as várias cores, tão diferentes e iguais, fazendo uma trama confusa. Como marca definida, apenas o desenho de uma pata de lagarto no ombro. Aqui, o brilho do tecido ficava inteiramente ofuscante, como se a pata fosse bordada de lantejoulas verdes. Tatisa acariciou aquele desenho com seus dedos brancos, as unhas curtas e sem vaidade, dedos de uma velha. Ela procurava o tato familiar das lantejoulas. Esperava nos dedos a confirmação daquele brilho tão conhecido. Nada. Apenas o toque suave de seda falsa. Mesmo o brilho, ela sabia, era falso. Com certeza não chegaria aos pés do brilho de uma lantejoula. Aquelas faíscas que via sair do verde do tecido eram efeitos de sua vista embaçada. Uma catarata se formava em seu olho. É preciso esperar, disse o médico de cabelos louros, tem de amadurecer primeiro. Era preciso que a cortina descesse completamente para só então descerrá-la. Descer ao fundo do poço, ela chegou a dizer. O médico sorriu seu sorriso de jovem. Mas ele é tão jovem, disse Tatisa à sua filha. Mamãe! Ela agarrou seu braço numa reprimenda discreta. Ele é o melhor nessa área, ela completou entre os dentes. Tatisa queria dizer que conheceu muitos médicos em sua vida, todos iguais. Eles olham pra gente um instante, perguntam se tomamos algum remédio, perguntam se temos alergia a alguma coisa e mandam a gente pra casa. Amadurecer? Eu já estou madura demais, doutor, caindo do pé, ela quis dizer também, mas se calou. O pudor de falar de sua velhice com aquele jovem de pele tão fresca. Calou-se na obediência que os velhos aprendem, engoliu a frase durante a consulta inteira e mesmo depois, enquanto atravessava a cidade naquele dia extraordinariamente quente, o calor exorbitava como que para confirmar a chegada do verão. Chegou à casa exausta. Tantos médicos nos últimos dias, tantos exames, as suspeitas de um mal invisível. Desabou no sofá e as palavras transbordaram. Não viveria para ver a catarata amadurecer. Ia morrer quase cega. Ora, mamãe, a senhora ainda vai enterrar todos nós. Vai ver quando os exames chegarem, a saúde de ferro. A filha falava animada, sem permitir uma palavra em contrário. Tatisa calou-se mais uma vez. Os exames.
O neto lhe tirou das mãos o tecido verde. Já era um rapagão o menino. Rodou pela sala com o pedaço de pano. Enrolou-o de qualquer jeito, como se fosse arremessar num cesto de roupas sujas e meteu no fundo da mala, enfiando a mão por entre as roupas que já estavam lá, o gesto vigoroso.
— Abadá, Vó. O nome disso é abadá. Há muito tempo que na existe mais mortalha nem fantasia. Nesse calor quem vai usar fantasia?
Ele respondia a uma pergunta lançada à neta. Cadê a fantasia de carnaval? A menina magra ficou ainda mais fina com a pergunta. Era anêmica de vontade, uma sílfide pálida. Estava ajoelhada perto de sua mala, dobrando pedacinhos de pano cor-de-rosa. Blusinhas. Arrumava a viagem como uma folha que se deixa levar pelo vento, sem querer ir, sem querer ficar, os pais já acostumados com aquela inapetência pela vida. A Avó não se conformava. Gostava de perguntar o que a neta queria, o que pensava das coisas. A resposta era quase sempre um dar de ombros. Quer dizer, de ombro, pois ela só levantava levemente o ombro direito e estendia os lábios uns poucos milímetros para frente, num muxoxo. Era nessa hora que os olhos caíam em diagonal para o ombro, como se vigiassem a execução do gesto.
A filha de Tatisa também estava às voltas com as malas. Arrumava a dela e a do marido. O genro tinha uma última reunião antes da viagem, a filha dizia a todo instante. Ele chegará a tempo, ela dizia com voz firme, afastando para longe a suspeita que nasceu junto com as novas reuniões. Tantas ultimamente. Foi com essa voz firme que ela anunciou a viagem. Vamos para a Bahia, mãe, quinze dias, praia descanso e, depois, o carnaval. O marido não teve argumentos para ser contra, tentou desculpas fracas, vagas, até ceder vencido. A neta sequer se manifestou. Só o neto ficou animado, queria ir atrás do Trio Elétrico, como naquela música: atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu ..., cantarolou Tatisa, lembrando da invasão dos baianos na televisão, As roupas exuberantes, a música tão nova e vigorosa. O carnaval da Bahia devia ser assim. Foi o neto quem lhe esclareceu tudo. Os cantores eram outros. O bloco carnavalesco da moda chamava-se Camaleão — o lagarto da camisa, ou do abadá, o que quer que seja isso. Era um carnaval para jovens. Não tinha lugar para velhos. O convite da filha demorou para vir. Antes ela ouviu o neto falar da exaltação da festa, os números de trios, de blocos, de pessoas, mais de um milhão, talvez dois. Muita confusão. Não, os baianos que Tatisa conhecia não cantavam nas ruas, nem os velhos nem os novos baianos. Só os novíssimos. Todos os anos, surgiam outros mais novíssimos ainda. Apenas quando o quadro se desenhou totalmente é que veio o convite da filha. Tatisa sabia que não era uma viagem para velhos. Só iria atrapalhar. Que é isso, mamãe, a senhora nunca atrapalha, a filha lançou a gentileza. Tatisa aceitou o gesto e manteve seu papel na farsa. Continuou recusando. O genro também insistiu para que ela fosse e o gesto pareceu-lhe até sincero! Ela não soube como reagir. Ele chegava de uma reunião e de repente a companhia da sogra ganhou tanta importância!
— Deve ser nome africano, o neto continuava sua explicação sobre o tal abadá. Só não sei o que significa. É feita assim: larga. Se quiser, a gente pode cortar, diminuir.
Tatisa alisou sobre a cômoda o paninho de crochê, feito com minúsculos pontos, ponto baixíssimo. Empurrou mais para o fundo o envelope que estava embaixo do pano. Aproveitou para empurrar para o fundo as lembranças de um outro carnaval. Aquela roupa verde, tão brilhante, lhe lembrou um outro tempo. Quase podia repetir o gesto de molhar os dedos no pote de cola, enfiar nas lantejoulas e espalhá-las em sua roupa verde. A fantasia estava sendo improvisada em cima da hora. Tão mais difícil conseguir um pouco de brilho naqueles tempos. O baile seria temático. Um baile verde. Lu, a empregada, ajudava na montagem apressada. O carnaval rodeava a casa com suas músicas alegres e inocentes, tão perto. Por que, então, o baile? Pensou Tatisa. Logo lhe veio na memória o Pierrô verde. Precisava ir a seu encontro, o namorado. Ela já tinha a certeza. Era um namorico apenas, mas ela já tinha a certeza. Ela via a filha e sua força e lembrava daquele Pierrô. Tão firme no convite. Vamos ao baile verde, está decidido. Ela quis falar do pai doente, mas não teve coragem. Nem quando rodopiava no salão pôde dizer: o pai. No entanto, a frase da empregada se lhe cravara na cabeça: ele não passa dessa noite. As previsões da Lu. Ela já errara tanto! Era como um corvo voando em torno da doença do pai, sempre prevendo sua morte. Mas já errara tanto! Era um corvo equivocado. E o pai não morreria no dia do baile. Tão importante o baile, ele sabia. Não foi isso que a empregada tinha dito? Ele sabia que o baile era importante pra ela. Estava se fazendo de forte, dizia Lu em sua cabeça enquanto rodopiava nos braços de seu futuro marido. Eles iam se casar e ter essa filha decidida que cuidaria da mãe velha e viúva. A vida assim resumida. Tatisa não pensava que os anos todos de seu futuro poderiam ser resumidos assim num passado tão curto. Ela não sabia disso e, naquela hora, afastava os agouros da empregada. Hoje não papai. E ria para encobrir com a risada a imagem da porta do quarto fechado, onde o pai...
— Mamãe!
Tatisa é acordada mais uma vez de suas lembranças.
— Vamos ter de sair antes da hora.
Tatisa já ouviu pela metade. Demorou a entender o que a filha dizia. O genro estava atrasado. Iam todos direto para o aeroporto. Ele podia seguir direto. Tatisa quis aconselhar. Não seria melhor ligar pra ele, lembrar da viagem uma reunião não demora tanto assim? E essa ausência constante? Tatisa lembrava de seu próprio pai. Só adulta percebeu que, quando criança, havia umas ausências diferentes. Havia um silêncio negro no rosto da mãe. Longos períodos de silêncio. O pai oprimido por aquela voz que não era dita. A mãe engolia as palavras e junto com elas mastigava as entranhas do pai. Um doloroso silêncio para os dois. Tatisa também teve seus dias de silêncio com seu Pierrô verde. A ela parecia um ritual inevitável. Os homens aprendiam as pequenas ausências, os pequenos atrasos. Eram pequenos tremores na vida. Às mulheres cabia silenciar e esperar. O mundo se recompunha então. Tatisa tinha passado por isso. Não era possível desviar desse caminho. Nada podia ser alterado. As pequenas ausências, todas, podiam ser logicamente explicadas. Tudo se encaixava milimetricamente. Não podia ser diferente. Imaginar que algo acontecera era impossível. Por isso o silêncio. Uma palavra errada poderia desmontar aquele equilíbrio delicado. Tatisa aprendera aquele jogo. Toda a vida de uma mulher se paralisava à espera do marido. Ela se arrumava, punha um belo jantar na mesa e esperava. Sua vida ficava em suspenso até que a chave girasse na porta. Ele então entraria e acenderia a luz e tudo estaria claro.
A filha de Tatisa não parecia entender por completo essa lei. Algo do silêncio ela aprendera, mas não podia esperar. Ela seguia em frente. Carregava o que pudesse levar, os que fossem fortes para a jornada.
— Minha filha, não é melhor esperar?
— Mamãe, Mamãe. Ele sabe os horários. Saberá chegar lá.
— Não é melhor irem todos juntos?
 A filha olhou séria. Não, não. Ela estava disposta a seguir com seu plano. Ir a Bahia, ao carnaval. O marido que fosse direto para o aeroporto. Se perdesse o vôo, pegaria outro. Se não fosse, que comprasse roupas, pois quase nada ficara em casa. Ia ter de usar paletós todo dia. As reuniões, tantas. Aprendesse a administrar as reuniões, dizia a filha. Havia uma tensão naquela família, Tatisa sentia em sua carne. Admirava a filha por sua mão firme. Era ela quem controlava o filho cada vez mais rebelde, tão perigosamente próximo do gesto agressivo. E essa menina tão diáfana, o que fazer com ela. Tão ausente, tão anêmica, sem apetite para vontades, sem vida nas veias. A filha tinha mão firme com ambos. Com uma refreava o filho e seus impulsos, com a outra empurrava a filha adiante. Não se preocupava verdadeiramente com o que ia dentro de seus corações, apenas seguia em frente, fazendo sua família caminhar nos trilhos, como um trem, uma estação por vez, até vir o final do caminho de ferro, ou até o abismo da ponte interrompida, todo o comboio lançando-se no vazio. Era assim que ela pensava que devia conduzir sua família, todos juntos, a família inteira, ainda que cada parte fosse um amontoado de cacos de vidro. As almas se destroçavam diante daquela força aglutinadora que era a filha. Iam todos para a Bahia. O carnaval. O bloco verde. Tatisa ficaria. O último vagão, já velho demais, ia se desprendendo do comboio. Ela já fora assim, uma locomotiva seguindo em frente, os vagões desprendendo-se no caminho. O pai. A porta fechada no corredor escuro, as marchas de carnaval lá fora. Uma verdadeira locomotiva naquela noite verde. Umas poucas lantejoulas caídas no chão tentaram acompanhá-la. Mas para onde, Tatisa?
— Não chegaram os exames? Pensei ter visto um envelope no meio da correspondência. Mamãe?
Tatisa gesticulou um sei lá com os ombros, um leve muxoxo nos lábios. A neta teve uma professora, isso era certo. Só não aprendera a ter o segredo por trás do gesto evasivo. Seu gesto era só isso, uma evasão, um esvaziamento. Tatisa sabia o segredo. Esse, o seu grande aprendizado na vida.
— Mamãe!? A clínica não ficou de mandar?
— Ficou sim. Não chegou?
— Eu pensei ter visto, mas acho que me enganei.
— Procure, querida, pode estar por aí.
Tatisa fez a sugestão como uma provocação. Conhecia bem a filha.
— Meu bem, não está em cima da cômoda?
Muita coisa estava em cima da cômoda, sempre tão atulhada e objetos. E agora,  naquela arrumação de viagem? A filha vasculhou com pressa os objetos e nada achou.
— Deixe que eu procuro depois, filhinha, vá fazer sua viagem, descansar.
— Mamãe, é importante, a senhora sabe.
— Minha saúde está ótima!
Os netos apenas observavam aquele impasse entre mãe e filha. Havia uma luta se desenrolando diante de seus olhos. Eles não entediam verdadeiramente, apenas sentiam o embate, como um surdo percebe as vibrações do som em seu corpo. Eles sentiam e reagiam cada um a seu modo. A menina afinou-se ainda mais, foi ficando delgada. Mais um pouco e sumiria por entre as malas. O garoto apenas murmurava palavras inaudíveis. Ele represava uma torrente de violência que poderia explodir a qualquer momento. Era quem mais precisava da Bahia. O que aconteceria com esse menino solto numa cidade como aquela? Tatisa tinha medo de imaginar. O que quer que fosse, a filha certamente teria força para segurar tudo. Ela sempre teve. Agora mesmo era capaz de vencer uma avalanche de impossibilidades contra seus planos. E fazia tudo com um simples olhar. Apenas com ele ela era capaz de afastar todos os problemas. O marido ausente em suas reuniões voltaria a tempo? Quanto tempo poderia conter o filho explosivo? E aquela menina se adelgaçando através da adolescência, ela chegaria a ser adulta? Tudo parecia desmoronar em sua volta. Ela, no entanto, inventava forças novas a cada novo problema. Viajar. O carnaval. Ela ia se divertir e seguir em frente. Nunca foi tão chegada ao carnaval. Algumas festas em criança, as farras de adolescente, apenas o que era esperado de uma moça. E, agora, aquela viagem. Ela corria como uma corsa que sente cheiro de fogo na floresta. Corria para se salvar. Não do marido que escapava de seus braços, não dos filhos que escapavam de seu útero. Tatisa sabia do que ela fugia e o quanto de força ela usava para fazer isso. Ela sabia que a filha seria capaz de vencer tudo que lhe acontecesse, todas as tragédias. Mesmo uma catástrofe natural ela venceria com os filhos nos braços. Apenas uma força poderia destruí-la. Tatisa sabia. Em meio ao embate, falou mais alto a natureza. Tatisa tocou o braço da filha e disse:
— Eu estou bem, querida. Os exames ainda devem estar chegando. Amanhã, depois. A qualquer momento eles chegarão. Não adianta você se preocupar agora.
A filha pôs uma expressão preocupada no rosto.
— Mamãe, você vai me prometer que vai me ligar assim que os exames chegarem, viu. Aliás, assim que eu me instalar no hotel eu vou ligar pra senhora.
Prometeu. Adiantou-se nas despedidas. Pra que prolongar mais aquela agonia? Já não havia dúvidas demais no ar? O genro não dera notícias. Ele iria ao aeroporto? A filha aceitou aquela gentileza da mãe. Eles começaram os abraços, todo um ritual de separação. Recomendações de ambos os lados. O afeto demonstrado como que na obediência de um protocolo de Estado. Tatisa via a filha partir em sua fuga, quase livre. E então, quando tudo parecia resolvido, a neta deixa escorrer da boca uma voz fina, quase um fiapo.
— Vovó, hoje de manhã não chegou um envelope branco com uma faixa azul e cinza? Não é esse o envelope da Clínica?
A reação da filha foi imediata. Queria ver onde estava, queria ver se eram os exames. Ela já se dispunha a trazer as malas para dentro, quando Tatisa atalhou.
— Não, minha filha, aquele é o envelope da catarata. Eu estava olhando ele esta manhã. Você sabe que eu não me conformo. A ciência tão avançada e eu tendo de esperar isso amadurecer. Não me conformo de ficar cega, mesmo que seja só por um tempo. Uma coisa tão simples. Não entendo.
— Mamãe, antes do fim do ano a senhora vai estar ótima, enxergando tudo.
A filha ria tranqüila, inteiramente compreensiva. Podia ser generosa agora, já estava em pleno vôo para a liberdade. Repetiram as despedidas, um resumo rápido.
A porta se fechou e Tatisa finalmente ficou só. Foi sentar-se no sofá. O envelope ardia embaixo do paninho de crochê. Não precisava abri-lo para saber o veredicto. Lá não estaria a data final, apenas a ameaça. Por que lê-lo, então? Lembrou de como ele chegou pela manhã, a empregada empilhando todas as cartas na cômoda. Lembrou de como rondou em volta do móvel a manhã inteira, como se já beirasse a vida pelo lado de fora. O pequeno retângulo branco com uma faixa azul e cinza. Bastaria abri-lo e todos os planos da filha estariam desfeitos. No meio do dia, decidiu que ele deveria desaparecer. Precisava escondê-lo. Aproveitou um momento de distração da família e foi à cômoda. As cartas estavam mexidas. O envelope, displicentemente enfiado embaixo do paninho. Ela compreendeu a mensagem. Ele estava fechado. A filha o empurrara para baixo, como se fosse uma poeira que se deve esconder embaixo de um tapete, como uma porta que não se deve abrir. Quer dar uma espiada, Tatisa? Ela ouviu a voz de Lu ecoando do passado. Aquela porta não foi aberta naquela noite de carnaval, o baile verde esperando. Tatisa jamais abriu aquela porta. Nunca mais. Hoje, apenas, toda uma vida depois, diante do envelope fatal, é que ela teve coragem de encarar o que lhe reservara o destino naquele dia. Sentada no sofá, fechou os olhos embaçados. Ela estava de novo no topo da escada de sua antiga casa. Apenas o barulho do relógio quebrava o silêncio. A porta estava fechada. Tatisa aproximou-se com cautela. Investigou os ruídos de dentro. Não pode distinguir nada. Girou suavemente a maçaneta antiga. Um retângulo negro foi se expandindo. Os olhos de Tatisa, agora, podiam ver tudo. O mundo estava incrivelmente claro. Lá dentro cintilavam pequenas estrelas. Algumas  lantejoulas pareciam convidá-la a entrar. Ela se sentiu inexplicavelmente calma. E então, depois de tanto tempo, tantos anos fugindo, ela entrou.