segunda-feira, 8 de março de 2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

L'albatros par Charles Baudelaire

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.



O Albatroz
Tradução de Ivan Junqueira

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Verlaine - Chanson d'automne

Les sanglots longs

Des violons

De l'automne

Blessent mon coeur

D'une langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne l'heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure.

Et je m'en vais

Au vent mauvais

Qui m'emporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

terça-feira, 2 de março de 2010

Tempo de prosa

Dias cheios estes.
Ando ocupado com a tarefa de escrever um livro de contos, um livro que, talvez, ainda esse ano publique. Trata-se de um livro temático, composto por apenas sete contos. Ainda não posso falar o título nem do que se trata. Nem sei se vai dar certo! Agora há pouco, acabei o primeiro conto e, depois de muito pensar nele, acho que sua realização não ficou boa. terei de pensar melhor. Vai para a gaveta por enquanto. Imediatamente comecei outro que já estava pensado. Penso todos os contos antes, mas na hora de escrever mesmo é uma aventura, é quando você vai conhecendo melhor aquelas pessoas. Este, vejam só, pensei em fazer na primeira pessoa, mas já na segunda linha me traí e ele ficou na terceira pessoa. Vou colocar a seguir o primeiro parágrafo.
Comentem!

Não precisava de todos os sentidos para saber que a casa acordava, por isso não abria os olhos. Para quê? Sabia que as cortinas estavam fechadas e que sua mãe só viria bem mais tarde, quando tivesse certeza de que ele já tinha acordado, ou quando decidisse que ele deveria acordar. Então, ela entraria silenciosa no quarto, pegaria suas roupas sujas no chão e com cuidado verificaria se o pouco barulho que fez serviu para acordar o filho. Se não, abriria a janela deixando que o vento se encarregasse de balançar as cortinas e fazer entrar a luz da manhã. Hoje, ele sabia, ela viria bem mais tarde. Era preciso dormir muito, ela dissera na noite anterior, dormir sem pressa e só acordar depois que o mundo se acomodasse de novo. Ele dormiu pouco. Foi uma noite de sobressaltos em que do nono profundo despertava para o susto, como se algo lhe expulsasse dos sonhos. Nestes momentos acordado, a casa pulsava num silêncio despovoado. Ele tentava escutar a mãe, a tia e a avó em seus quartos, algum vestígio da noite que tiveram, mas nada ouvia. O cansaço logo vinha e o sono retornava. Toda a noite passou assim, até que reconheceu os primeiros barulhos da manhã.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dois poemas

Todo poeta tem poemas como esses abaixo: um de que todos gostam, que sempre é lembrado; e outro de que o poeta gosta muito, mas que não é percebido pelos outros.


POEMA DE QUE TODOS GOSTAM


Pipas


Todas as pipas que tive

não as vi voando

míope que sou.

Só o barbante suspenso,

o farelo de vidro.

No alto, puxando,

a pipa invisível.

vem voar comigo.

Hoje não. Estou de castigo.


POR QUE GOSTAM: o que alcança as pessoas é o tom de infância que o poema traz


POEMA DE QUE GOSTO


Ave


Parte-se no ar

a asa,

esvai-se

o voo exato.


Cai vermelha,

grave,

a ave.


rodopia

debate-se

parte-se

no piso.


Não sobrevivo.


POR QUE GOSTO: gosto do ritmo e da cena que é descrita. Ao mesmo tempo musical e visual. Talvez não seja um poema relevante, enfim, mas gosto muito.


foto minha

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O melhor café de Salvador


Café com leite e torta alemã na Sala de arte do PAC (pavilhão de aulas do Canela), campus da UFBA. Gosto de café e já passei por todos os tipos: capuccino, machiatto, frapuccino... mas bom mesmo é o simples café com leite. O do circuito sala de arte é imbatível, exceto o da sala vivo. lá compraram uma máquina diferente. não é a mesma coisa. Vou à Sala de arte do PAC quando tenho tempo antes das aulas da noite na Faculdade ali perto. É sempre um momento de tranquilidade no meio da semana. No momento em que tirei a foto com meu celular, tocava um instrumental de Manhã de Carnaval. Ouvia essa música quando criança, numa gravação de João Gilberto. Eram os tempos de ouvir música com o encarte do LP na mão, acompanhado a letra, tempos lentos e contemplativos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

NÃO ME FAÇA LER ESTE POEMA

Não me faça ler este poema

cheio de frases secretas

e de tanta inteligência.


Não me obrigue a ler o verso

que algum filósofo sustenta

para me salvar da inércia.


Seja para mim mero poeta

de olhar o horizonte todo um dia

e me convidar a sentar ao cais.


E, então, faça do seu livro um barco,

do poema, velas e mastros

e deixe-me soprar.

Foto minha

domingo, 31 de janeiro de 2010

A omoplata na Verbo21

A revista V E R B O 21 (http://www.verbo21.com.br ) acaba de publicar o conto meu A OMOPLATA, ganhador do Prêmio Newton Sampaio 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Paraná. Abaixo o início do conto, seguido do link. Leiam lá, comentem e recomendem:

A omoplata

Por Marcus Vinícius Rodrigues

— E essa cicatriz?

Ele passou a mão pela omoplata esquerda do outro. Era um risco em diagonal. Começava perto do ombro, o esquerdo, e ia descendo e se aproximando da coluna. Ele estava deitado de costas na cama. O outro, de bruços sobre ele, as pernas sobre seu ombro direito, abraçado em suas pernas. Nus. Ele acariciava o corpo do outro, as coxas, a bunda, as costas, numa lenta preguiça.

— Parece que lhe arrancaram uma asa.

— Como é?

— É! A marca é certinha como se você tivesse uma asa aqui e alguém tivesse arrancado.

O outro riu.

— Asa?

Agora ele vai dizer que eu sou um anjo caído do céu, pensou o menino.

— Como um anjo. Alguém lhe arrancou essa asa e você caiu do céu, coitado.

O outro se virou e olhou para ele. Um olhar doce atrás dos cachos dos cabelos. Passou para debaixo de uma das pernas dele, como um gato dengoso, se enroscando mais ainda.

— Você me acha um anjo?

— Acho. Um anjo que caiu do céu.

— É?

O menino ficou esperando que ele falasse dos cachos.

— Um anjinho.

— Eu já fiz papel de anjo, na escola. O anjo da anunciação. Todo ano eu tinha de fazer. Eu nunca queria, mas as freiras me adulavam até eu aceitar. Eu ia lá e dizia que ela ia ter um filho de Deus.

— Aí ela dizia: mas eu não conheço o homem.

— Eu era pequeno, não sabia o que queria dizer isso. Ficava perguntando às freiras, mas elas não respondiam. Eu não entendia como Maria não sabia o que era um homem.

— Mas você ia lá e dizia tudo direitinho.

— Como um anjo.

— Também, com esses cachos.

O outro abriu um sorriso satisfeito. E riu mais ainda quando ele começou a morder levemente a sola de seu pé. Tentava escapar e não conseguia. Ele abriu suas pernas e começou a lambê-las, foi subindo pelas coxas até a bunda.

— Vem cá, Miguel Arcanjo!

O menino riu ainda mais.

— Olha, você escolheu o anjo errado.

— Por quê?

— Miguel não foi aquele anjo que expulsou Adão e Eva do Paraíso? Acho até que foi ele que pôs fogo em Sodoma, a espada flamejante. É melhor não chamar ele aqui não, viu?

— E se eu lhe chamar de anjinho safado, pode?

— Ou Gabriel.

— Gabriel?

—O anjo da anunciação, bobo. O inseminador.

— Inseminador? Você pensa umas coisas, cara.

— Mas não foi isso que aconteceu? A primeira inseminação artificial da história. Ou celestial, se você quiser.

— Não dá pra acreditar que você tá falando essas coisas.

O menino ficou sério, olhou para ele com gravidade.

— E se não foi nada disso. Já pensou? O anjo foi lá e resolveu tudo do jeito antigo. Afinal, eram os tempos antigos, não era?

— Como você é safado!

— Aprendi com as freiras.

— Então vem cá, safadinho. Eu quero mais do meu anjinho agora.

— Mais?

— É.

— Agora?

Ele balançou a cabeça num sim. O outro respondeu divertido.

— Eis aqui a serva do senhor. Fazei em mim segundo a sua vontade.

***

http://www.verbo21.com.br/v3/index.php?option=com_content&view=article&id=63:a-omoplata-marcus-vinicius-rodrigues&catid=46:tribuna-janeiro-2010&Itemid=68

Foto minha

sábado, 30 de janeiro de 2010

20 ANOS COMO ADVOGADO

Quando alguém que me conhece apenas como escritor, poeta ou professor; ou mesmo quando nada sabe de mim e me vê distraidamente, quando esse alguém descobre que sou advogado, sempre toma um susto. Minha resposta habitual é dizer: mas ser advogado é minha primeira natureza. A primeira coisa que fui na vida foi advogado. Mesmo que já escrevesse alguma coisa na adolescência, apenas com 30 anos publiquei. O Direito, ao contrário chegou para mim concretamente aos 17, quando entrei na faculdade da Universidade Católica de Salvador. Cheguei a fazer Comunicação na UFBA, por um ano, mas abandonei. Letras eu só faria anos depois, também na UFBA. E essa é uma história outra e mais transcendente.

Foi o Direito, sim, que veio primeiro e, aos 21 anos, tornei-me advogado. Minha primeira encarnação adulta. Bem, considero que fiquei adulto ainda muito tempo depois, desconfio até que esse ainda é um processo. O amadurecimento é todo dia. E quando se está maduro, cai-se do pé.

Enfim, dia 31 de janeiro de 2010 completam-se 20 anos de minha formatura. Muito tempo. E o tempo acaba por se sobrepor sobre todos os outros valores da vida, modificando-os, ampliando-os ou apagando-os. Ser advogado é minha identidade mais antiga, a primeira no tempo. Talvez não a que ficará depois de muito tempo que eu morrer. Escrevi uns poemas por aí... e com a poesia não se deve brincar, ela pode ser tão resistente quanto o tempo.

Sou um advogado e, como digo a meus alunos, quem é advogado pode ser qualquer coisa na vida. Eu me dedico a ser todas as identidades que desejo. Quero passar por todas, ser todas as coisas, pois a verdade é que, se existir isso de verdade, a verdade é estamos aqui só de passagem. Nós não ficamos, o que ficam são nossos caminhos abertos no mundo. Isso para aqueles que abrem caminhos. Os que apenas percorrem trilhas já abertas, esses não deixam no mundo uma marca sua. Eles não ferem a pele do planeta. Apenas quem se desvia da estrada e abre novas picadas na floresta é que pode permanecer nos rastros que deixa.


Foto de David Glat

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ainda algo se passa

quando digo agora: meu amor.


Assim fazem as palavras,

nos lábios por que passam,


ressurgir o beijo úmido

que o tempo já apagou.


foto minha

sábado, 16 de janeiro de 2010

Meu amor vem à tarde
e todas as tardes me invade.

Há tardes que vem concreto,
há tardes que vem mistério:

as tardes de marcas vermelhas,
as tardes de dores do sexo.

Eu apenas espero.


foto minha

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O que é isso,

esse cheiro guardado,


patchouli envenhecido

perdido no olfato?


É o meu amor

assim ao acaso lembrado


numa tarde de quarta-feira

bem ao meio do trabalho.




Foto minha