terça-feira, 18 de setembro de 2012

Conto: SEGUNDA-FEIRA


O Conto SEGUNDA-FEIRA abre o livro CADA DIA SOBRE A TERRA, em que cada conto se passa num dia da semana e é influenciado pelo orixá reinante no dia.






Segunda-feira

— Mas o senhor veio pelo Campo Grande, moço? Tudo engarrafado? Assim não chego lá hoje.
O táxi estava parado em frente ao Palácio da Aclamação, num congestionamento de uma segunda-feira. A mulher, branca, aparentava mais de cinquenta anos. Os cabelos cacheados eram em tudo naturais. Mantinham o desalinho dos cachos e os grisalhos, que tomavam toda a cabeleira, enfiados entre os cabelos pretos da juventude. Ela arfava de um calor que sentia sozinha naquela manhã ainda fresca, abanando-se com um lenço branco, que, de vez em quando, passava no pescoço que se avermelhava. Os seios grandes, brancos, apareciam no decote amplo da bata também branca.
— Nem sei por que reclamo. Pior era quando o jornal ficava na Paralela. Um inferno! Muito longe, muito longe. Eu levava uma vida pra chegar. Em São Lázaro é muito melhor. Se pelo menos o senhor não tivesse vindo por aqui.
O motorista olhou pelo retrovisor sem dizer nada. Tinha perguntado por onde ela queria ir quando a pegou no Jardim de Nazaré, percorreu toda a Av. Joana Angélica e a passageira não disse uma palavra sobre o itinerário e agora era como se acordasse finalmente.
— E tenho de chegar cedo, cortar um texto. Agora tem de escrever pouco, umas notinhas apenas. Nada mais de matérias longas, nada de aprofundamentos. Não tem mais lugar para isso no jornal. Tem de ser rápido. Fácil de ler, como na internet. Agora tudo é internet. Pouco texto, muita foto. Ninguém mais lê, moço. O senhor lê jornal?
O motorista fez menção de falar.
— Lê as manchetes, já sei. Hoje em dia só se lê isso. E eles querem que a gente dê conta de contar tudo na manchete. Vai acabar assim, o senhor vai ver. E cultura, então, já era. Eu fiz uma matéria tão boa sobre o Ilê. O senhor foi no Ilê sábado? Foi o concurso da Beleza Negra. Tão bonito! Gosto dessas coisas. O Ilê tá com tudo. Eu lembro do começo deles, a luta que foi. Eu era nova no jornal. Quer dizer, eu era nova, nova de tudo, não era isso que o senhor tá vendo. Outros tempos. Agora, acabou-se. Fui lá com preconceito, não vou negar. Coisa de negros. Hoje não tenho preconceito. Tenho até amigos negros. Trato todo mundo igual.  Namorar não namoro, isso não. Sei lá. É uma questão de gosto, sem racismo. Na época até namorei, era a contestação. A gente ia contra aquela repressão da ditadura, cabia isso. Meu pai quando me viu com um colega da faculdade, mulato, ficou uma fera. Minha filha criada no Instituto Feminino agarrada com um tição. Ele gritava dentro de casa. A gente morava no Jardim Baiano, no tempo que era um lugar bom. Meu pai tinha fazenda de cacau, um monte de padarias e mercados na cidade, era filho de português, minha mãe era galega legítima, só nasceu aqui, mas a família era toda da Galícia. Fui bem criada, mas esse tempo acabou. Acabou-se, moço, acabou-se. O Ilê começou com aquela bobagem de não aceitar branco, era a luta deles. Falei tudo na minha matéria. Chamei de Que bloco é esse? Por causa da música, o senhor sabe. Contei toda a história da formação deles. Eu tava lá! E qual foi a ordem? Cortar, cortar, cortar. Nada disso, só uma notinha, mais nada. Aí, vou eu lá cortar, cortar, cortar. Que jeito?
O carro já passava pela Reitoria.
— Como se eu não tivesse mais nada pra me preocupar na vida. Tá certo que, sem os filhos, a preocupação diminui. Meia verdade, filho sempre dá dor de cabeça. A menina tá morando em New York. É assim que ela fala. Antigamente a gente botava tudo em português nas matérias. Hoje é no original, tudo estrangeiro. E essa mania de baiano de por nome americano. Aí escreve tudo errado. Onde tem w bota u. Um horror! E o Michael Jackson? Já viu o tanto de Maicon e de Jáquison que tem nesse país? A gente não dá conta. Minha filha tá lá. O marido tá trabalhando numa multinacional. Ela não faz nada. Estuda inglês e só. Querem ter filho lá, aproveitar pra ver se ele nasce americano. Quem dera, hein, moço, eu ser avó de um americaninho.
A mulher olha para o aviso de não fumar no vidro do carro.
— Aqui não pode fumar, né? Não pode fumar em canto nenhum dessa cidade. Meu médico me mandou parar. Disse que cigarro mata. Ah, se eu tivesse certeza disso? Tenho de ligar pra minha filha, saber como ela está. O problema é que eles não têm telefone lá. Só ligam pelo computador. A tal da internet. Uma ligação esquisita. E tem de ver um dia que eles estejam conectados. Muito difícil. A gente combina por e-mail, mas nem sempre dá certo... o senhor não fuma, não, né?
Ela batucou de leve na porta do carro.
— Meu médico mandou parar.
A mulher ficou olhando as pichações no muro do Hospital das clínicas.
— Aqui tinha sempre uma pichação: Fora Sarney, Fora Collor, Fora FHC... eles só mudavam o nome, o “Fora” era o mesmo. Eles estão todos lá agora. Não tem mais luta, moço, agora é cada um por si. Eu tô cuidando de mim. Vou lá ajeitar minha matéria, cortar tudo bem obediente. Não posso ficar sem trabalhar. Ai, ai. Sou um dinossauro. Se saio da linha, eles me notam e me mandam embora.
Abriu mais a janela do carro, baixou o último dedo de vidro que faltava, uma mudança mínima, e enxugou a testa.
— Tem muita gente nova por aí. Todo mundo conectado na internet. Eu que não me cuide. O que eles não sabem é escrever, mas são super descolados. Lá na redação tem uma novinha, toda antenada a cadelinha. Tatuagem, roupinha descolada, magrinha ela. Aposto que minha matéria vai abrir espaço pra um perfil que ela vai fazer de uma banda de rock, ou sei lá o quê, que nem disco tem. Eles lançam as músicas na net, ela falou, toda elétrica. Uma bobagem. Eu ouvi. Uma música que não anda, toda cortada. Não gosto disso não. Minha filha deve gostar.
Olhava pra fora, mas não via mais a rua, os olhos grudados no vazio.
— Tenho de ligar pra ela.
Olhou pra nuca do motorista.
— Eu tenho um filho, sabia? Mora em São Paulo com o pai.
E voltou a cabeça para a rua.
— Eu que não trabalhe. Vou lá e corto essa bendita matéria. Vou dar uma notinha e pronto. Nem posso demorar, esse médico marcado. Tantos exames! Não sei pra quê.
Em frente à entrada da Av. Euclides da Cunha, o carro para novamente. O Sinal vermelho.
— Já tive apartamento aqui na Graça. Vendi. Muita conta, o condomínio era muito alto.
Olha para a floricultura do outro lado da rua, exatamente em frente da saída da avenida.
— Essa floricultura aí é um perigo. Pra mim, qualquer dia um ônibus perde o freio e desce direto. Toda vez que passo aqui me dá uma aflição. Fico imaginando o ônibus entrando e matando todo mundo. Quando morava aqui eu ia longe pra comprar flores. Tinha medo de morrer esmagada. A gente tem uns medos bobos, né, moço. E nem adianta. No dia de morrer a gente morre e pronto. Não adianta espernear.
Ela se cala um pouco. O carro começa a subir a ladeira que vai dar no Campo Santo. O trânsito vai lento, o táxi segue atrás de um ônibus. A mulher parece mais e mais incomodada.
— Esse trânsito! São essas faculdades. Todo dia é isso. Antes tivessem deixado o jornal na Paralela. Pra que mudar? A gente só muda pra pior. E agora é cortar e cortar. Eu tô ficando sem espaço, eu e a cultura dessa cidade. Agora é a violência, o crime, o crack... bandido tem mais destaque que artista. Antes era uma página pros bandidos e o jornal livre pras outras notícias. Agora é só sangue. E é em todo canto, não tem mais jornal que não fale de crime. Até no horário nobre da televisão é assim. Olha só, era aqui que eu vinha comprar flores.
Estavam em frente ao Campo Santo.
— Engraçado. Tinha medo de morrer e vinha comprar flores no cemitério. Que ironia. Sabe que nunca mais comprei flores? Em Nazaré é mais difícil achar. Também, nem estou mais nessa de enfeitar casa. E o dinheiro é mais curto. Outros tempos. Mas não peço dinheiro a ex-marido. Tenho meu orgulho. Quando minha filha vier me visitar, compro flores. Ela vai ter de vir, vai ter. A gente não se fala muito, mas ela vem. Vou ligar pra ela. É minha filha, poxa. É isso que vou fazer hoje. Edito a matéria, vou ao médico e ligo pra ela. Pronto. Um dia todo organizado. É preciso ter um pouco de ordem no dia, planejar. Assim tudo dá certo.
O carro avança e passa em frente ao CEPHAR, antes de entrar na estrada de São Lázaro.
— No meu tempo não tinha isso de planejamento familiar. A gente tinha filho e pronto. O pai dos meus é esse homem horroroso. Penei muito. Antes tivesse me deitado com o mulato. Quem sabe no que ia dar, hein? Quem sabe? A gente acha que está fazendo tudo direitinho, a vida toda organizada, tudo planejado, mas, quando vai ver, já meteu os pés pelas mãos. Eu me ferrei legal. Se tivesse planejamento familiar naquela época, pelo menos uma injeção para não menstruar... ah, a vida sem cólica que bom seria. Eu já passei cada uma. Mulher sofre, meu senhor, mulher sofre. Tem que aguentar marido, filho, pai doente, mãe maluca, controlar a empregada assanhada com o seu marido, trabalhar para poder dizer que é independente, tudo isso e com cólica e salto alto. E depois, depois a gente é largada sozinha num canto, num apartamento grande e velho, num bairro que já era. A gente já era. Fazer o quê? Dizer que é jornalista? Pensar a cultura da terra, dar opinião, defender uma causa?  Nada. Tem de cortar. Seu box é pequeno, ele disse. Mantenha-se no seu limite. E todo dia lhe tiram um pedaço de espaço. É um comercial maior, é uma matéria sobre mais uma chacina, são as novidades da tecnologia, todo dia um pedaço de texto que lhe arrancam. E você não pode fazer nada. E a identidade cultural baiana? Corta. A música? Corta. O candomblé? Corta. Nada mais serve. Quando a gente se dá conta, eles já estão cortando nosso peito fora, tirando tudo. Sobra o que? Uma notinha, uma linha, uma nesga de espaço no papel, um buraco no peito. Faz um blog, eles dizem, escreve num lugar que ninguém vê, um mar de gente dizendo coisas sem sentido. Hoje é assim, moço. Todo mundo pode falar, não precisa estudar, não precisa faculdade, não precisa ser jornalista. Liga o computador e fala. E eu? Eu tenho de cortar, diminuir, espremer num cantinho de jornal trinta anos de história. E a minha história? O que eu faço? Engulo? Esqueço? Atiro pela janela? Eu me atiro pela janela? É isso? Eu me mato? Eu me mato? É isso que eles querem: me matar. Pois não vou morrer. Não vou. Eles que me aguentem assim, inteira. Não conto nem mais um pedaço, nada, nada, nada...
O carro já seguia em frente à faculdade de filosofia da UFBA, no final da rua.
— Mas o que o senhor está fazendo aqui? Já passou do jornal, moço.
— A senhora não disse onde era.
— E o senhor não sabe? Um motorista de táxi? Olhe! Me deixe aqui na igreja, me deixe aqui, vá.
O Táxi parou em frente à igrejinha branca de São Lázaro. A mulher pagou e desceu do carro, que arrancou em seguida. Ela ficou ali parada, sem olhar para a igreja. Olhava para o lado do mar, que se podia avistar dali por entre os hotéis de Ondina. Sentou-se na mureta e ficou observando o jogo de futebol no campo da universidade lá embaixo. Podia ver que aqueles meninos não eram universitários, novos ainda, adolescentes, muito jovens, muito irritantemente jovens e saudáveis e cheios de energia e de vida e alegres e descuidados.
Descuidados como só os muito jovens podem ser.
Ela ofegava. Estava sem fôlego da explosão de agora há pouco. Tinha se dado conta do quanto falara. Desde que entrou no táxi, estava falando. Ficou tentando imaginar o que o motorista tinha achado daquilo tudo, mas nem mesmo conseguia lembrar do rosto dele. Não reconheceria se visse novamente. Ficou ali respirando devagar. Lembrava da ioga? Tentou uma respiração profunda, mas só conseguiu ficar tonta. O ar faltava. Pensou que fosse mesmo desfalecer ali sozinha, numa manhã de segunda-feira pior que todas as outras.
— A senhora está sentido alguma coisa?
— Hein?
A jovem vestida de baiana de acarajé olhava pra ela.
— Veio visitar a igreja? Tá fechada hoje.
— Não, não vim ver a igreja, não, minha filha. Faz tempo que não entro em igreja.
— Veio tomar banho de pipoca?
— Como?
A moça mostrou a bacia que carregava apoiada na cintura. Estava cheia de pipoca.
— Não, minha querida, não acredito nessas coisas.
A menina riu.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Não que tentar? Mal não faz.
— Não.
A menina sentou-se a seu lado. E colocou a bacia no colo. Mexia nas pipocas enquanto falava.
— Às vezes eu também não acredito, aí eu jogo as pipocas, junto com minha mãe, que é feita, e as pessoas se sentem tão bem.
— E sua mãe sabe que você não acredita?
— Falei pra ela um dia. Aí ela me disse pra eu não me preocupar que ela acreditava por mim.
— Compreensiva ela.
— Não é? Aí eu relaxei. Às vezes acredito, às vezes não, vou levando.
— E por que quer me dar o banho?
— Achei que a senhora estava querendo.
— Estou não.
— Tá bem.
Ficaram as duas sentadas olhando pro horizonte. Não falaram nada por alguns minutos. Soprava um vento fresco vindo do mar. A mulher descansava. Ela se sentia como se tivesse corrido uma maratona, a respiração difícil ainda. A jovem apenas a observava enquanto mexia as pipocas na bacia.
A mulher olho pra menina e riu suave.
— Já disse que não acredito.
— Eu sei.
— Então, por que não vai embora?
— Não tenho o que fazer agora, não.
A mulher se levantou.
— Bom, eu tenho de ir.
— Olha, se a senhora não acredita, tudo bem. Eu posso acreditar pela senhora.
A mulher achou engraçada a menina e riu.
— É! Hoje eu estou num dia de acreditar. Posso acreditar pela senhora.
Vencida pelo encanto que era aquela moça assim solícita, tão jovem e bonita ainda, a mulher aceitou.
— Está bem.
— Ótimo.
A jovem se levantou e começou a despejar sobre a cabeça da mulher as pipocas. Usava a mão direita e despejava aos poucos. Tinha um ar solene. Despejou quase metade da bacia.
— Pronto.
— Acabou? É só isso?
— É. Tá vendo? Acreditando ou não, nem dá trabalho.
A mulher sacudiu a cabeça e com as mãos tirou algumas pipocas que tinha grudado no cabelo. Sacudiu a roupa e se despediu.
— Agora eu vou.
— Vai em paz.
A mulher começou a voltar pela estrada. Caminhava devagar, sem pressa. Já respirava melhor. Não sabia mais o que ia fazer no jornal, nem lembrava o que devia fazer naquele dia. Tudo estava em branco no seu planejamento. Sabia apenas que devia voltar. Talvez até nem devesse ir ao jornal, podia voltar para casa ou ir a outro lugar. Podia fazer qualquer coisa. Que importava agora?
Sentiu no vestido, dentro do decote, alguma coisa que lhe incomodava. Procurou e achou no peito esquerdo uma pipoca pequenina. Ainda lá dentro do peito, por dentro da roupa, amassou a pipoca até ela ficar bem triturada. Uma onda de alívio invadiu seu corpo, sentiu um prazer real, como se alguém que a amava muito estivesse acariciando seu peito. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que as coisas podiam dar certo e que não estava acabado ainda.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

COMO FAZER UM CIGARRO DE MACONHA



Era uma noite em Recife. Eu estava na casa de amigos no bairro de Boa Vista. Estava ali hospedado, em férias, e acontecia uma festa. Em determinado momento, alguns amigos foram para o quarto. Hoje eu sei, mas àquela época não, que este sutil movimento dos cantos, o êxodo silencioso para os quartos, a súbita discrição, esse reconhecimento ancestral de pessoas que mal se conhecem, um entendimento tácito dos olhares, todos esses índices conduzem a um único ponto. Desatento que era e sou, fui também ao quarto. Lá estavam os amigos desembrulhando um pedaço de jornal com a maconha. Fiquei por ali olhando entre curioso e cansado. Não tenho nenhuma curiosidade por drogas, assim como não gosto de álcool, que me dá sensações desagradáveis. Não gosto desse tipo de embriaguez. É apenas não gostar, como quem escolhe andar pela esquerda e não pela direita... ou, talvez, um fastio, uma birra, como a que me fez recusar a chupeta quando criança. Minha mãe conta que a minha rasgou, não acharam outra igual. Veio uma maior, outra menor, sempre diferentes. Recusei todas. Talvez isso, talvez nada disso. O desejo de explicar tudo é a primeira prepotência humana.
Eu estava lá, olhando a intrincada operação de fazer um cigarro de maconha. Devia ser algo muito difícil, pois todas as tentativas resultavam em desastres. Os cigarros eram tortos, uma hora cheios demais, em outras, desfaziam-se.  Foi então que eu disse: eu sei fazer cigarros.
Eles não acreditaram. Eu, que nem bebia, ia fazer os cigarros?
O fato é que eu sabia. E muito bem.
Nunca gostei de fumar cigarros, apesar de todos na minha família fumarem. Decididamente, neste aspecto não sou fruto do meio. Algumas vezes, quando minha mãe me pedia para ir buscar a carteira de cigarros, eu acendia e já trazia acesso. Recebia uma bronca leve, sem muita convicção e pronto. Tentei umas vezes, mas não gostei.  Gostar ou não de alguma coisa talvez dependa dessas pequenas experiências na infância. Lembro que levei minha adolescência inteira sem gostar de creme de leite. Tinha ânsias de vômito só de pensar. Até que um dia, sabendo que ele compunha a receita de um doce, passei a vê-lo com melhores olhos, ou paladar.  Os enjoos passaram. Nada mais natural, já que os doces são as minhas drogas com seus males e prazeres e contra os quais luto diariamente.
Quanto aos cigarros, aprendi a fazer na adolescência. Tinha um avô que fumava cigarro de palha, com fumo de rolo, daqueles comprados na feira. Ele não podia fazer sozinho. Já estava velhinho. Aliás, desde que me lembro, ele era assim. Ele não tinha movimento de um dos braços, por causa de um tiro que sofreu numa emboscada de um ex-capataz, uma história a ser contada em outra oportunidade. Eram os tempos mais selvagens do sul da Bahia. Ele também já estava completamente surdo, um mal mais prosaico, causado pelo destino dos genes. Bem, desde muito pequeno, eu tinha de sentar a seu lado. Ele, naquelas cadeiras de lona de diretor de cinema americano, tão comuns no interior, eu, num banquinho.  Tinha de tirar pedaços de fumo do rolo, fatias finas, depois colocava uma quantidade na mão e esfarelava, ou desfiava, como se desfia frango cozido.  Fazia isso na palma da mão, que guardava aquele cheiro por dias.  Pegava o papel de fumo e colocava uma porção exata. O segredo era essa quantidade, que dava um cigarro na medida certa. Com a prática, eu fazia todos os cigarros iguaizinhos. Depois, era preciso enrolar o papel. Primeiro, o papel ainda apenas dobrado, fazia a quantidade de fumo ganhar a forma certa. Só então enrolava o papel, usando o canivete para prender a ponta interna dentro do rolo, da espiral que seria feita. Com saliva fazia-o colar. Ainda com o canivete, empurrava a pontinha dos canudos de fumo para dentro, fechado o cigarro nas duas pontas.
Com as variações necessárias, fiz lá os cigarros de maconha. Ficaram bons na medida do possível que o papel não era o adequado. Havia muito improviso naquela noite. Logo eles acenderam o cigarro, que passou de mão em mão. A fumaça subindo espessa fazendo círculos que se transformavam em espirais, mas que se embolavam no caminho e se espalhavam como um borrão branco. Aos poucos a conversa seguiu o mesmo caminho, os assuntos circulavam em torno da roda, enrodilhavam-se na tentativa da espiral ascendente e logo se desfaziam numa massa informe de risadas. Novamente, uma tragada, nova baforada de ideias, formava-se a primeira curva da espiral, a segunda; mas, de novo, o borrão. Outra tentativa, outra e outra e agora nem mesmo a primeira curva se formava. Tudo era apenas borrão. Desinteressei-me, saí do quarto. Eles ficaram lá dentro esfumaçados e vagos em suas dissipações.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Conto QUINTA-FEIRA


QUINTA-FEIRA
Do livro CADA DIA SOBRE A TERRA,
de Marcus Vinícius Rodrigues

Ele desceu como uma flecha as escada que ligavam a Ladeira de Nanã à Rua do Dique Pequeno. Pulou os buracos sem degrau e quase caiu quando pisou num deles que estava solto, mal colocado. Era uma escada ainda aquela, mas há muito abandonada, coberta de mato, degraus faltando, degraus soltos. Mas ainda assim era o caminho mais rápido entre o Parque Boa Vista de Brotas e o Dique do Tororó. Jorge não descia por ali há muito tempo. Tudo que fazia era lá em cima, no Engenho Velho. Nunca ia ao Dique. Pra quê? Nada ali lhe interessava. Via de longe as águas, os orixás em torno da fonte, a noite toda iluminada, as pessoas correndo em volta, os carros lentos nos engarrafamentos, tanta coisa girando em torno daquelas águas. A fila de ônibus seguia para a Estação da Lapa, numa romaria de gigantes. Pareciam os dinossauros daquele filme, todos enfileirados e burros, como gado a caminho do matadouro. Iam se enfiar nos buracos da estação e despachar do estômago as vísceras, os passageiros e suas vidas corridas e ocupadas.
 Via de longe apenas, da janela de seu quarto, todos os dias, da manhã até a noite, toda a noite, às vezes, quando ficava acordado, sem sono, sem um amanhã esperando, sem hora de levantar e sair para o trabalho. Apenas observava lá de cima o Dique e tudo que em torno dele girava, vivo e veloz, lento e constante. Era como se toda a cidade passasse por ali. Ele, em sua janela, olhava e sentia que não fazia parte daquilo tudo. Nada lhe dizia respeito.
Sem trabalho, sem conseguir nada, restava ficar em casa o dia todo. Depois que a mulher e os filhos saíam, ia para a janela. Podia descer, caminhar pela rua, ir ao Dique lá embaixo, mas para nada tinha vontade. No princípio, saía ainda de casa para as tarefas de desempregado, as filas de seguro desemprego, as filas de seleção, as entrevistas, essas eram suas saídas quase diárias. Depois, tinha o tempo ao lado do telefone, a espera. Nenhuma resposta. Aos poucos foram rareando essas saídas. Passou a enganar a mulher dizendo que ia sair e, quando todos deixavam a casa, ia até a janela e se deixava ficar. Sem nada a fazer, apenas contemplava. Via o céu mudar ao longo do dia, via as sombras das árvores do lado de cá se recolherem à medida que o sol ia alto. Depois, via as sombras das árvores do lado de lá se esticarem sobre as águas acompanhando a tarde caindo. Passava assim seus dias.
A mulher, no princípio, brigava, chamava-o de inútil, incapaz. Mas, com o tempo, desistiu. Aos poucos ela foi abandonando o marido, ocupada que estava com sua própria vida que seguia. Tinha um emprego e dois filhos para ajudar a sustentar. Eles trabalhavam, é verdade, mas ainda dividiam o tempo com estudos.  O mais velho vendia roupas na mesma loja em que a mãe trabalhava, num shopping popular no centro da cidade. O mais novo, ainda no primeiro emprego, era garçom, logo ali, no Dique, numa pizzaria à beira d’água. Este era o filho mais próximo do pai, o caçula, o júnior de seu nome, e que ainda se preocupava com sua demora para conseguir novo emprego, sua demora para acordar ela manhã, sua demora para dormir. Sempre que voltava da pizzaria, ainda o encontrava à janela.
— Ainda aí, pai?
— Esperando você, filho.
Ela sabia que não era verdade. Não era o filho que o pai esperava. De verdade, não acreditava que o pai esperasse alguma coisa ainda, tão desinteressado que estava das coisas, dos filhos, de sua mãe.
— Um colega me falou de uma empresa que está pegando gente, pai. A garagem é na Barros Reis. Quer que eu vá lá com o senhor?
— Pra quê? Eles não pegam mais cobrador com experiência. Se já trabalhou em outra empresa, eles não gostam. Acham que o cara já está viciado no que é errado.
— Não custa tentar.
— Cobrador esperto não bota todo o dinheiro no cofre. Morrer na mão de bandido pra quê? Tem que ser muito idiota ou novo o ramo. É preciso deixar alguma coisa para o ladrão.
— E aquele curso de motorista?
— To vendo aí uma vaga.
Não estava, o filho sabia. Já tinha tentado antes, quando estava empregado. Todo cobrador queria ser motorista, ele também. Começou a manobrar os ônibus na garagem, junto com o manobrista. Ia bem no aprendizado. Queria estar craque pro dia de se inscrever no curso da empresa. Faria o curso e seria um dos melhores. Daí era só tirar a carteira e, na certa, seria promovido. Sua vida estava assim programada.  Mas, então, num dia em que treinava à noite, depois do trabalho, a garagem quase cheia de ônibus, estacionava um deles num último espaço na fileira, ali bem perto da bomba de gasolina. Manobrou errado, abriu demais a curva e atingiu a bomba, de leve. Ela quase se soltou, ela quase vazou. Quase foi um acidente enorme. Todo o combustível podia ter vazado, tudo podia ter explodido. Nada aconteceu. Apenas Jorge perdeu o emprego, por um triz, por um centímetro, por uma meia volta que não fez no volante. Por quase nada.
E tudo que sabia era trabalhar como cobrador, os dedos ágeis para contar dinheiro. Queria levar essa agilidade para o gesto largo dos braços, mas errou o tamanho da volta. Era tão antigo na empresa, mas não tinha como explicar estar ali no lugar errado, na hora errada. Tinha apenas de sair e não voltar. Foi assim que, depois de tantos anos, voltou pra casa e ficou. Até o dia em que se debruçou na janela para ver o sol de pôr atrás do bairro do Tororó lá do outro lado do Dique. Viu aquela luz se esvaindo escorrendo para o mar que tinha lá do outro lado, deixando atrás de si um escuro salpicado de luzes miúdas nas casas. Dormiu aquela noite um pouco mais tarde, vendo as pequenas luzes se apagarem aos poucos, as casas lá do outro lado se fechando para esperar a manhã.
Nessa época, sua mulher ainda se incomodava de ele não ir dormir junto com ela, mas uma noite, mais cansada que das outras vezes, dormiu sem chamá-lo. Ele passou a noite na janela, viu o filho mais novo chegar do trabalho, viu mesmo ele sair da pizzaria lá embaixo e atravessar a rua a caminho de casa. Nesse dia só foi para a cama com o dia quase raiando. Quando a mulher saiu de casa para trabalhar, ele ainda dormia.
Foi assim que seus horários se separaram do resto da casa. Apenas com o mais novo tinha um momento de conversa no fim da noite.
— Eu tenho um freguês que trabalha nessa empresa que falei. Ele disse que consegue alguma coisa pro senhor. Basta ir lá.
— Que coisa, filho? Sei trabalhar com mais o quê?
— Ele consegue uma vaga de despachante. É mais que cobrador, mais que motorista.
— E por que ele vai me dar uma vaga tão boa.
O filho hesitou em falar.
— Ah! Ele me deve essa. Um favor que fiz pra ele, mas ele disse que o senhor se encaixa na vaga. Contei como o senhor era e  ele gostou.
— Assim. Só de você contar?
O filho olhava agora pela janela e para o Dique lá embaixo. Concentrava o olhar nas árvores em volta, procurava ali alguma coisa que estava escondida. Queria uma resposta que escondesse a que não podia dar. Uma boa história, com alguma verdade ainda, capaz de saciar o pai e sua desconfiança em tanta sorte.
— Começou quando ele perguntou por que eu era Júnior, de que nome. Quando eu disse que me chamava Jorge e que o senhor se chamava Jorge, ele gostou. Quis saber se o senhor era feito.
— E o que você disse?
— Eu não menti.
— Ah!
— E ele gostou assim mesmo. Disse que era um Jorge que podia resolver a vida dele. Num Jorge ele podia confiar.
O menino falava aliviado, tinha resvalado na mentira, mas já estava de novo nas fileiras dos sinceros. Não importavam muito os detalhes da conversa que tivera e que ajudariam o pai a entender o que estava dizendo. Importava que o pai entendia a parte que interessava. Ele era querido naquele trabalho. Era necessário. Alguém já confiava nele.
— Vamos lá depois de amanhã?
— Sexta? E alguém começa a trabalhar numa sexta-feira?
— Pra ele lhe conhecer. Dando tudo certo, o senhor começa segunda.
Jorge demorou a dormir como todas, mas acordou cedo. Ainda ouviu os barulhos matinais da casa, a mulher e o filho mais velho se arrumando para o trabalho. ficou na cama fingindo dormir até eu a casa estivesse silenciada. O filho mais novo também tinha saído para a escola. Antes, porém, sentiu sua presença no quarto, observando o pai que dormia. Estava esperançoso, era visível na forma como andava pela casa. O pai queria retribuir tanta esperança, tanta confiança ainda. Assim que ficou sozinho, levantou-se. Tomou café como todos os dias, em pé, no corredor em frente à cozinha, de onde podia ver a janela do quarto. Naquela hora não costumava ficar na janela. Apenas a partir das dez horas da manhã é que começava sua vigília diária.
Mas aquele era outro dia. Em vez de se debruçar na janela, resolveu tomar banho e sair. Estava um dia quente, sem nuvens no céu. O bairro tinha muito trânsito naquela hora. Quando alcançou a rua principal, que contornava o Parque Boa Vista, os ônibus passavam em velocidade, quase tocando as casas que ficavam muito próximas da rua.  Caminhou pelo canto, sem calçada, até entrar no Engenho Velho. Sabia que lá dentro, quase no fim-de-linha, tinha um babeiro barato. Nunca tinha ido, já fazia um tempo que cortava o cabelo de qualquer jeito em casa com a máquina de raspar do filho. Cortava baixo, mas sem raspar, e sem acabamento. Hoje, queria diferente. Um corte normal, como se fazia antigamente, bem batido nos lados e atrás, bem curto, mas ainda com cabelo. Queria mostrar os brancos que já tinha e mostrar que eram poucos, homem forte ainda. Homem respeitável, mas forte.  Foi esse o corte que pediu ao barbeiro. Apenas quando sentou na cadeira para cortar os cabelos é que viu, pelo espelho, lá atrás numa prateleira, a figura de São Jorge. Ele estava sobre seu cavalo momentos antes do golpe fatal de sua lança. O dragão, sob as patas do cavalo, aguardava o golpe. Eles estavam paralisados naquele momento, um segundo antes do fim, a morte e a glória, a redenção enfim. Dali a pouco o mal seria destruído e se esvaneceria para sempre da face da terra.
— Da lua.
Era assim que o filho lhe corrigia toda vez que contava essa história. Era pequenino ainda e depois que ouviu a primeira vez, percebeu a incoerência. Se São Jorge vivia na lua, ele e o dragão, só podia acabar com o mal de lá. Aqui na terra ficava tudo a mesma coisa. E quando o pai mostrava a lua e dizia que aquelas manchas era o santo perseguindo o dragão, o filho dizia: mas ele não já matou esse bicho?
Um dia, o filho pediu de presente uma estátua de São Jorge. Foi difícil explicar que não podia dar a imagem, que a mãe dele não gostava dessas coisas. Idolatria, ela dizia, quando o filho tocava no assunto.
— Mas meu pai é devoto de São Jorge.
— Não é não. Já se libertou dessa enganação de demônios.
A mãe sempre falava de demônios. Acreditava muito neles. O menino acostumou-se a não falar mais no assunto. O pai acostumou-se a nem mesmo lembrar como fora sua infância e sua juventude, como um guerreiro, um caçador em meio a uma floresta de aventuras. Acostumou-se ao emprego simples, acostumou-se ao desemprego, acostumou-se a apenas ver o mundo girar em torno das éguas do Dique, em seu sentido anti-horário, como se estivesse sempre voltando no tempo, um segundo para frente, dois para trás, todos os dias parados e iguais, sem nada para acontecer.
— Pronto.
O babeiro anunciou o fim do corte, trouxe um espelho que pôs atrás de Jorge. A nuca estava batida, bem rente ao couro cabeludo. Depois, o cabelo ia subindo e formando no alto da cabeça um topete duro, ainda muito curto. A cabeça inteira estava uniforme, sem que os crespos do cabelo se enrodilhassem. Jorge gostava assim, um corte rente, antes que o cabelo desse a primeira volta, uma espiral antes de começar. Assim ele podia ser qualquer coisa e ninguém podia saber ainda o que era. Era o mesmo truque dos filhos, que raspavam tudo, só que com mais perigo, pois o corte vinha no último instante. Em uma semana tudo se desfazia.
Jorge contou os dinheiros do bolso, pagou e saiu. Estava cada vez mais confiante naquela nova vida que viria. Caminhou de volta para casa com o olhar mais alto, fixo em frente. Assim, reparou que reparavam nele, a moça do armarinho, que escondeu um sorriso com as mãos, a velhinha que lhe cumprimentou, o carregador de cervejas que lhe deu passagem, mesmo segurando tanto peso. Caminhou um caminho reto e decidido, sem se desviar, sem ser desviado por ninguém, apenas seguia um caminho traçado. Chegaria lá, pensava. A cada passo, sentia-se menos só, como se lhe acompanhasse aquele São Jorge da barbearia. Não tinha um espelho agora. Se tivesse, surpreenderia o santo lhe servindo de escolta. Podia apenas sentir o trotar do cavalo e, à frente, depois de passar por sobre o seu ombro direito, lá adiante, a ponta da lança que lhe abria os caminhos, certeira, exata. Chegou mesmo a perceber um jovem se desviar da lança. Ele saía de uma loja e, ao virar, pareceu ver a lança e desviou de lado. Jorge passou sem olhá-lo, mas pelo canto dos olhos pensou vê-lo fazer um gesto de saudação e murmurar um canto.
Foi assim que chegou em casa, foi assim que passou todo o dia: encantado. Tinha sempre a seu lado o cavaleiro da lua e seu cavalo, mesmo no pequeno quarto de dormir. Não ligou para os comentários da mulher sobre seu cabelo. Ela logo o deixou em paz, já acostumada com o silêncio do marido. Sabia que ele e sua janela viviam num mundo distante do seu. Ele voltava os olhos para fora, para o horizonte, e nada que acontecesse na casa lhe incomodava. Foi assim naquela como nas outras noites, mas desta vez ele não se sentia só, senti-se forte e confiante. No dia seguinte, cedo, acordaria e, com o filho, seu Júnior, iria ao novo emprego. Bastava esperar mais essa noite passar, apenas mais uma, apenas mais uma.
Mas o tempo não passa assim em saltos, como quem pisca o olho e acorda no outro dia. As horas se arrastam pouco a pouco, e é preciso ver tudo que acontece nos momentos inúteis da espera. Jorge olhava o Dique e seus giros em volta diminuindo. Já não havia mais o congestionamento de carros, os ônibus já rareavam, a noite já ia alta e começava a descer para o dia. Ele esperava. Foi então que viu.
Se ele contasse a alguém o que viu, diriam que era mentira, que àquela distância não poderia ver nada, ainda mais à noite. Sandices de um velho. Mas ele viu
Saindo da pizzaria, já apagada, viu o filho. Era um vulto indecifrável na noite, mas era seu filho. Podia ver o andar que conhecia há tanto tempo, desde os primeiros passos. Podia ver os gestos das mãos, as mesmas mãos que se estendiam para pedir o colo do pai, quando o pai era toda a fortaleza que conhecia. Ele gesticulava conversando com um rapaz. Eram gestos fortes, decididos. O outro rapaz apenas ouvia, sem nada dizer. Então, começou a falar e seus gestos eram mais fortes e pareciam brigar com Júnior. Parecia que brigavam. Jorge, então, viu o filho mudar. Ele explicava alguma coisa, pedia, depois brigava. O outro respondia mais violento. Quem era aquele homem? Jorge não conhecia. Não era ninguém da pizzaria. Conhecia todos lá e tinha certeza que reconheceria todos. Era um desconhecido. A discussão continuava cada vez mais violenta até que o filho empurrou o rapaz, que caiu no chão. Jorge estava tenso e orgulhoso. O que viria agora? Foi então que algo brilhou no rapaz. Jorge não viu o que era, mas viu o filho dar um passo pra trás.
Jorge afastou-se da janela num salto. A mulher dormia na cama. Queria voltar e ver o que acontecia, agarrar-se a sua janela de onde via tudo acontecer lá embaixo, a distância lhe dando toda a segurança de que precisava. Bastava voltar e pronto. Mesmo que visse o filho ser morto, ainda assim, estaria em sua janela de onde observava o mundo. Ali. Seguro.
Bastava voltar e olhar.
Jorge saiu correndo pela casa até a porta da rua, saiu porta afora num galope violento. Não sabia o que fazia ou pensava, apenas corria como uma flecha. Uma flecha certeira e caçadora que uma vez lançada só para no alvo fatal.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

A omoplata

Republico aqui a pedidos. O conto saiu no livro EROS RESOLUTO, pela editora P55, 2010 e ganhou o 1º lugar no Concurso nacional de contos Newton Sampaio 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Paraná.
— E essa cicatriz?
Ele passou a mão pela omoplata esquerda do outro. Era um risco em diagonal. Começava perto do ombro, o esquerdo, e ia descendo e se aproximando da coluna. Ele estava deitado de costas na cama. O outro, de bruços sobre ele, as pernas sobre seu ombro direito, abraçado em suas pernas. Nus. Ele acariciava o corpo do outro, as coxas, a bunda, as costas, numa lenta preguiça.
— Parece que lhe arrancaram uma asa.
— Como é?
— É! A marca é certinha como se você tivesse uma asa aqui e alguém tivesse arrancado.
O outro riu.
— Asa?
Agora ele vai dizer que eu sou um anjo caído do céu, pensou o menino.
— Como um anjo. Alguém lhe arrancou essa asa e você caiu do céu, coitado.
O outro se virou e olhou para ele. Um olhar doce atrás dos cachos dos cabelos. Passou para debaixo de uma das pernas dele, como um gato dengoso, se enroscando mais ainda.
— Você me acha um anjo?
— Acho. Um anjo que caiu do céu.
— É?
O menino ficou esperando que ele falasse dos cachos.
— Um anjinho.
— Eu já fiz papel de anjo, na escola. O anjo da anunciação. Todo ano eu tinha de fazer. Eu nunca queria, mas as freiras me adulavam até eu aceitar. Eu ia lá e dizia que ela ia ter um filho de Deus.
— Aí ela dizia: mas eu não conheço o homem.
— Eu era pequeno, não sabia o que queria dizer isso. Ficava perguntando às freiras, mas elas não respondiam. Eu não entendia como Maria não sabia o que era um homem.
— Mas você ia lá e dizia tudo direitinho.
— Como um anjo.
— Também, com esses cachos.
O outro abriu um sorriso satisfeito. E riu mais ainda quando ele começou a morder levemente a sola de seu pé. Tentava escapar e não conseguia. Ele abriu suas pernas e começou a lambê-las, foi subindo pelas coxas até a bunda.
— Vem cá, Miguel Arcanjo!
O menino riu ainda mais.
— Olha, você escolheu o anjo errado.
— Por quê?
— Miguel não foi aquele anjo que expulsou Adão e Eva do Paraíso? Acho até que foi ele que pôs fogo em Sodoma, a espada flamejante. É melhor não chamar ele aqui não, viu?
— E se eu lhe chamar de anjinho safado, pode?
— Ou Gabriel.
— Gabriel?
—O anjo da anunciação, bobo. O inseminador.
— Inseminador? Você pensa umas coisas, cara.
— Mas não foi isso que aconteceu? A primeira inseminação artificial da história. Ou celestial, se você quiser.
— Não dá pra acreditar que você tá falando essas coisas.
O menino ficou sério, olhou para ele com gravidade.
— E se não foi nada disso. Já pensou? O anjo foi lá e resolveu tudo do jeito antigo. Afinal, eram os tempos antigos, não era?
— Como você é safado!
— Aprendi com as freiras.
— Então vem cá, safadinho. Eu quero mais do meu anjinho agora.
— Mais?
— É.
— Agora?
Ele balançou a cabeça num sim. O outro respondeu divertido.
— Eis aqui a serva do senhor. Fazei em mim segundo a sua vontade.
***
Depois do banho, eles voltaram para a cama.
— Não era “fazei em mim segundo a vossa vontade”?
— Não. Era “sua” porque era a vontade de Deus e não do anjo e Deus não estava presente.
— Deus está em todo lugar.
— Mas ela não estava falando com ele, ora. Foi só o anjo, eu te contei.
— Você entende muito de anjos, né.
— Você nem imagina o quanto.
O menino riu divertido.
— Vem cá, vem. Fica aqui comigo.
Ele agarrou o menino e o abraçou. Ficaram enroscados um no outro.
— Se eu dormir, promete não levantar?
— Prometo.
— Como meu anjo?
De novo o anjo, pensou o menino. Tantas vezes o anjo.
— Mas nós não podemos ficar agarrados para sempre, você sabe.
— Só mais um pouco.
— Tá bom.
O outro lhe beijou a cicatriz nas costas.
— O que foi mesmo?
— Hum?
— A cicatriz.
— Dorme, vai.
— Ah! Conta.
— Foi um acidente. Eu caí de um muro.
— Mas é tão bem feitinha. Parece um corte de faca.
O menino se desvencilhou do homem e sentou na cama.
— Por que alguém ia me cortar com uma faca? Que coisa!
— Sei lá. Tem maluco pra tudo nesse mundo.
— Eu caí. Tava brincando no muro, correndo, acredita? Perdi o equilíbrio e caí de costas. O anjo caído, como você falou. Minha mãe deu aquele tal de ponto falso. Uniu as duas partes e colocou um esparadrapo bem largo. Ficou essa marca.
— Coitadinho. Vem pra cá, vem.
— Eu tenho de ir embora.
— Fica mais.
— Não dá.
— Pra que a pressa?
— Eu vou pegar minha roupa na sala.
O menino saiu do quarto. Ele ficou na cama. Uma cicatriz tão bem feita, como se tivesse sido feita por uma navalha, uma faca.
— E você caiu em cima do quê? Gritou para o outro na sala.
— Hein?
— Quando você caiu do muro, onde você se cortou?
Da sala não veio nenhuma resposta. Ele se levantou e foi até a sala. Estava vazia. Chamou pelo outro.
— Diga.
O menino estava parado na porta da cozinha, ainda nu. As roupas embrulhadas na mão, escondendo parte do corpo ainda adolescente. Ele já tinha vinte anos, mas a carinha era de menino. E perto do outro, bem mais velho, parecia ainda mais garoto.
— Tava com sede. Você não se incomoda de eu ter aberto a geladeira, não é?
— Não, não. Claro que não. E eu nem ofereci nada. Quer comer alguma coisa?
O menino se aproximou. Pegou em seu queixo e o beijou.
— Eu tenho tudo que eu quero aqui.
De novo estavam entrelaçados. As roupas foram deixadas no chão. Ele suspendeu o menino nos braços e o levou de volta para o quarto, pra a cama. Jogou todo o seu peso sobre o corpo franzino. As mãos apertavam as coxas, a cintura, deixavam uma vermelhidão na pele branca. Eles começavam a se amar de novo.
— Eu preciso mesmo ir embora, disse o menino.
— Você não vai mesmo dizer como você se cortou assim nas costas.
O menino estava embaixo dele, totalmente submetido a sua força. Tentou afastá-lo um pouco. Olhava sério, até que explodiu numa risada divertida.
— Como você é curioso.
— Demais.
— Eu caí do muro, já disse.
— E...
— E me cortei em alguma coisa, uma pedra, sei lá. Eu gostava muito de correr em cima do muro. Brincava de pega-pega. Não lembro bem como foi.
Ele virou o menino de bruços e enquanto abria suas pernas, lambia a cicatriz.
— Parece faca. Parece que alguém tentou te cortar.
Ele falava enquanto pressionava todo o corpo sobre o menino.
— Fala a verdade, fala.
— Tá pesado.
— Fala!
— Tá bom. Mas você não vai acreditar. É uma história tão maluca. E faz tanto tempo que eu minto. Nem sei se sei falar a verdade sobre isso.
— Quero ver você falando a verdade.
— Como é? Tá me chamando de mentiroso?
Ele ficou olhando para o menino sem falar nada.
— Tá, né?
— Não é isso. É que você nem quis dizer seu nome.
— Mas eu não menti. Eu só não quis falar. Eu também não quis saber o seu.
— Eu posso contar.
— Não. Vamos ficar assim. Sem nomes.
— Se eu soubesse seu nome, podia lhe conhecer melhor.
O menino olhou sério para ele.
— Nomes não mostram nada, não. Só escondem mais. Se eu me chamasse Gabriel ou Miguel, como esses anjos aí, ia fazer alguma diferença? Você nem ia ver direito quem eu sou.
— Mas eu não to vendo agora.
O menino foi até a janela.
— E se eu me chamasse Ariel? É um nome de anjo, não é? Também é o nome daquele espírito do ar daquela peça. Se eu me chamasse Ariel, eu podia voar?
— Afasta daí, vai.
Ele sentou na janela, os braços abertos. Segurava-se pela ponta dos dedos nas laterais da janela.
— Escolhe um nome de anjo pra mim e minhas asas vão nascer.
— Pára de brincadeira. Desce daí.
— Você tem de escolher o nome certo. Se for o nome certo, terei asas. Se você errar, vou cair daqui e me espatifar na rua lá embaixo.
Ele não sabia o que fazer. Aquele menino pendurado em sua janela. Tão jovem. Tão violentamente jovem e magro. Seu corpo ficou pesado e cada vez mais velho. Ele não tinha força para pular e agarrar o menino. Um só passo e o alcançaria. Era um homem grande, forte. Bastaria um gesto e o pegaria. Quando o encontrou na rua, parecia ser tão inofensivo. Não haveria perigo de levar aquele garoto para casa. Poderia dominá-lo tão facilmente. Depois, descobriu que não era tão jovem assim. Vinte anos. Veio a hora dos nomes. É preciso dizer o nome quando se conhece alguém.
— Vamos nos conhecer sem nomes. Ele disse.
Mas como não querer saber o nome daquele menino tão doce e encantador. Ele queria conhecer mais e mais o garoto. Sentia até que queria algo mais do que uma noite. Entrou naquela carne com se voltasse para casa. Era o lugar onde queria estar, tanto tempo sozinho. Podia estar carente, iam dizer os amigos, mas naquele momento achava que estava certo. O menino era como um anjo mesmo.
E, de repente, toda aquela conversa doce e inofensiva de anjos descambava para aquilo. Um menino pendurado em sua janela. A qualquer momento podia se jogar. O corpo estendido no asfalto lá embaixo. O escândalo.
— Desce daí, vai. Isso não tem graça nenhuma
— O nome. Diz o nome. Com um nome você me salva ou me mata.
O menino soltou os dedos. O homem se jogou e o agarrou a tempo. Com uma força tirada da tensão, puxou o menino com violência e jogou na cama.
— Você é maluco?
— Você me salvou. Meu herói.
Ele estourou uma gargalhada!
— E quem lhe salva, agora?
O menino gargalhava descontroladamente. O homem atônito.
— O que foi agora, cara?
— Você me salvou. E você, quem salva. Dizia o menino entre risos. — Agora você tem de cuidar de mim. Isso é praticamente uma lei universal.
— Cuidar de você?
— É. Cuida de mim.
A voz dele ficou doce e carente. O homem sentiu o corpo esfriar. O sangue se acalmava nas artérias. Ele se sentia como se estivesse caindo num abismo. Um escuro abismo. Tudo desabava lentamente, a explosão do gesto anterior de puxar o garoto da janela se esvaziando aos poucos. O menino se enrolou no lençol, como um bebê. Apenas as costas à mostra. Parecia esconder no lençol um choro. Pelo menos foi isso que o homem pensou que acontecia. Sem ver, via o que queria. Era apenas um pequeno anjo desamparado aquele menino. Sem nome, apenas esperava alguém que o acolhesse. O homem deitou a seu lado e abraçou aquele corpo delicado. Voltou a beijar a cicatriz nas costas. O lugar de onde tinham tirado a asa daquele anjo, de onde tinham tirado a inocência. Ele sentia cada vez mais que aquele menino lhe pertencia e que sua vida deveria pertencer àquele menino. Sem nome, ele, encontrado na rua, um menino que poderia ser um assaltante, tão falsa aquela história de colégio de freiras! Por outro lado... não, não havia um outro lado. Nada em que pudesse se agarrar. Tudo era perigo. Mas por que sentia tanta certeza? Ele cabia exato nos seus braços. Poderia caber exato na sua vida. Ele sabia, apesar de tudo que vinha contra, ele sabia que tudo acabaria bem.
— Eu vou cuidar de você!
***
— Foi uma freira
— O quê?
— A cicatriz. Foi uma freira.
— Uma freira?
— No colégio, eu era interno lá, tinha uma freira, Irmã Undira, que gostava muito de mim. Tinha verdadeira obsessão. Era ela que sempre me fazia ser o anjo nas peças. Acho que ela acreditava que eu era um anjo.
— Undira. Que nome diferente. É Italiano?
— Não sei.
— O que ela tem a ver com essa cicatriz?
— Você vai achar que eu estou mentindo.
— Conte.
— Eu já tinha uns onze anos. Ela ainda queria que eu fosse o anjo na peça. Eu estava grande demais pra isso. Não queria. Mas a idéia dela era fixa em mim. Parecia que ela queria mais de mim, sabe? Vivia me apalpando discretamente. Um dia ela me chamou na oficina do colégio. Era lá que ela fazia as roupas de todas as peças do colégio. Queria me mostrar uma nova asa de anjo. Eu não imaginava que algo assim pudesse acontecer. Fui lá, obediente. Tirei a camisa como ela mandou e me sentei. Não cheguei a ver a asa. Eu só lembro da dor, como se uma faca afiada tivesse sido cravada nas minhas costas.
O homem olhava calado o relato do menino. Estavam deitados. O menino estava de bruços. Não era possível ver seu rosto. A voz era calma.
— Gritei muito e fugi. Corri muito pelos corredores do colégio, até chegar ao refeitório. Lá, desmaiei nos braços da cozinheira. Lembro de ter sido levado ao hospital. Fiquei dois dias lá. Quando voltei, disseram que a Irmã Undira tinha ido embora para um outro convento. Não era verdade, um dos meninos disse que encontraram a Irmã na oficina, morta. O corpo numa enorme poça de sangue. As freiras não deixaram ninguém saber. Esse meu colega só soube porque ouviu uma história atrás da porta. Você sabe como são essas coisas. Logo depois eu saí do colégio. Voltei pra minha cidade no interior. Não fiquei muito por lá. Ganhei o mundo.
— Ela quis enfiar uma asa em você?
— Não sei. Podia ser mesmo apenas uma faca. Quem entende os loucos? Para mim ficou essa impressão, uma armação de ferro enfiada nas minhas costas. Eu seria um anjo de verdade. Você acredita nisso? Ela queria que eu fosse um anjo de verdade e enfiou aquilo em mim. Depois disso, tive de mentir em casa, dizer que tinha caído de um muro. Essa passou a ser a verdade. Uma das freiras, Irmã Fernanda, ficou um tempão me catequizando. Sabe aquela voz doce que as freiras têm? Ela, primeiro, me convenceu que era melhor não contar nada a ninguém. Depois, ficou repassando comigo a história até ela ficar bem redondinha, até virar verdade. As freiras me ensinaram muito, até a mentir bem, sabe? Todo mundo acreditou. Talvez nem tivessem acreditado, se eu contasse a verdade, tão doida essa história.
— É uma história muito estranha mesmo, difícil de acreditar.
— Tá vendo. Por isso que eu não queria contar. Agora você vai mesmo dizer que eu sou um mentiroso. Já sei. Você acha que eu me meti numa briga, sei lá, que eu sou um bandido e que essa cicatriz é uma prova da minha vida de crimes.
— Eu nem sei o que você faz pra viver.
O menino se virou para ele. O olhar tranqüilo.
— Eu também não sei o que você faz pra viver.
— Ah! Mas eu ...
— Já sei. Você tem esse apartamento, um carro... Quem garante que você não é um bandido dos grandes, um traficante, sei lá. Você também pode ser um maluco e querer me matar a qualquer momento.
— Você não vai dar uma de doido de novo, vai?
— Quer que eu vá embora?
— Não, não é isso.
— Olha, eu posso ir. Tudo bem.
— Eu quero que você fique. Não disse que ia cuidar de você?
— Disse.
— Então? Eu só queria saber o que você quer de mim.
— Muito pouco.
— muito pouco?
— Mas eu pensei...
O menino abriu novamente seu sorriso. Novamente ele brincava. O sorriso era doce e ao mesmo tempo ácido, dissolvendo com sua química tudo o que ele dizia. Num segundo suas palavras eram verdade, no outro o sorriso denunciava uma mentira. O homem estava novamente jogado à dúvida. Uma pequena brincadeira como essa fazia com que ele duvidasse da história das freiras. Tão inacreditável mesmo. E tudo naquele menino levava a essa insegurança. Mais uma vez ele se agarrava à certeza de seu coração. Tudo estava certo. Ele sentou sobre a cama, em cima do menino. Suas pernas prendiam os braços dele. Num único gesto ele imobilizava o outro. Sua força dominava tudo. O beijo começou forçado. Depois, foi se harmonizando, ficando apaixonado. Quando o menino já estava entregue, ele soltou os braços dele de suas pernas.
— Eu vou lhe dar tudo que você quiser.
— Tudo mesmo?
— hum, hum!
— Então você pega água pra mim?
— como?
— Água.
O homem riu divertido.
— Mas você não leva nada a sério, hein?
— É que eu ainda tô com sede. Isso é sério
— Tá bom. Eu vou pegar água pra você. Fica aqui quietinho, viu?
— Eu vou ficar. Bem quietinho mesmo.
Ele se levantou. O menino ficou na cama olhando para ele. Parecia tão tranqüilo. O homem também estava tranqüilo. Encontrara de alguma forma alguém para ter, cuidar, amar talvez. Não importava muito se era um garoto ainda tão perdido, tudo se ajeitaria. Passou pela sala, viu as roupas emboladas no chão. Tinha feito um novelo com as roupas, pareciam um pacote. Um bagunceiro, pensou. Ele se educaria. Tudo ficaria bem. Fora do quarto, não podia vê-lo e não o vendo, poderia ver o que quisesse. Assim, ele via um garoto perdido pronto para ser encontrado, um anjo de uma asa só, se debatendo para voltar a voar. Ele o ajudaria. Faria dele alguém - o seu alguém – e então ficaria em paz.
Entrou na cozinha. Ela estava na mais absoluta ordem, como gostava de deixar. Ele espera uma mínima bagunça. Um copo em cima da pia, a garrafa fora da geladeira. Talvez a geladeira aberta. Nada. Nenhum vestígio de que o menino tivesse bebido água mais cedo. Da ordem absoluta, havia apenas uma falha: a gaveta de talheres imperceptivelmente entreaberta. Um alarme estourou na sua cabeça. Ele não abriu a gaveta, mas o que não via se mostrava nítido em sua cabeça. Parecia tão claro. Todas as cenas voltaram como um relâmpago. As conversas. Tudo em velocidade, até um momento se fixar. O sorriso do menino tilintando atrás de uma frase.
— Quem te salva?
Ele lembrou. Num instante rápido, quis que nada disso tivesse acontecido, queria não ter se deixado levar por... Devia ter tomado mais cuidado. Queria retroceder, escapar, mas tinha ido longe demais, já estavam num ponto em que não se pode mais voltar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

M.

Cinco sentidos

tem a mão do menino na escola.

Antes do mundo ele aprende as portas,

Mas hesita na pergunta:

entro?

O olho fixo no misterioso centro

da palma.


In pequeno inventário das ausências, Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 2001.

domingo, 23 de janeiro de 2011

FAZIMENTO

Tece o fio,

prepara a alma,

cuida que esteja pronta

para a feitura.


Trança a malha,

ama a trama

que o prazer é

o fazimento.


Ponto por ponto

sem estar findo,

tecido da vida

por se fazer.

In pequeno inventário das ausências, Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 2001.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O vestir de cada um

No dia 22 de novembro de 2010, aconteceu o primeiro encontro dos seminários de literatura brasileira da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Na ocasião, a estudante da disciplina Literatura Brasileira, ministrada por Carlos Ribeiro, apresentou a comunicação O VESTIR DE CADA UM sobre o livro 3 VESTIDOS E MEU CORPO NU. Agora, o texto está disponível da internet, no link abaixo


ou ainda

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Vão das Letras


Vão das Letras fechará o ano com música e poesia

A programação cultural contará com apresentação do Grupo Viola de Arame e bate-papo com os escritores Goulart Gomes, Marcus Vinícius, Lucas Jerzy e Rafael dos Prazeres

A última edição da Feira de Livros Vão das Letras de 2010, promovida pelo Núcleo do Livro, Leitura e Literatura da Fundação Pedro Calmon/SecultBa, em parceria com o Teatro Castro Alves e a Câmara Bahiana do Livro (CBaL), ocorrerá no dia 19 de dezembro, das 12h30, às 18h, no Vão Livre do TCA (Campo Grande). O evento trará uma variedade de livros com preços especiais de final de ano, além de uma programação cultural, voltada para a promoção da música, do livro e de autores baianos.

No local, o público também terá acesso a artesanato do Bazar da Rampa. A entrada é gratuita e aberta a toda família. A Feira acontecerá junto ao projeto Domingo no TCA que, neste dia, trará o Balé Teatro Castro Alves, apresentando a montagem “À Flor da Pele”, na Sala Principal, às 11 horas, com ingressos a R$ 1 (inteira), sendo vendidos no mesmo dia, a partir das 9 horas, com o acesso imediato do público.

A abertura da Feira será com o show instrumental do grupo Viola de Arame, que apresentará ao público um repertório que passeia pelos ritmos e melodias do samba chula, do pagode de viola, do baião, do choro, e ainda outras fusões inusitadas, através de releituras de temas populares e de composições próprias. Os músicos multi-instrumentistas, Júlio Caldas e Cássio Nobre, apresentam neste trabalho alguns dos resultados de suas experiências com a viola caipira (ou viola de arame).

Escritores - Para o momento da Conversa com o Escritor, o NLLL convidou quatro artistas da palavra, que falarão sobre suas vivências criativas e participação em concursos literários. Os escritores que estarão em contato com o público serão Goulart Gomes, Marcus Vinícius, Lucas Jerzy e Rafael dos Prazeres, autores que têm em comum o fato de todos terem ganhado prêmios no Estado do Paraná em 2009. Marcus Vinícius ficou em primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio – 2009, da Secretaria de Cultura do Paraná, com o conto: A omoplata. Neste mesmo concurso, Lucas Jerzy foi indicado para menção honrosa, com o conto: Os galos. Já Goulart Gomes e Rafael dos Prazeres foram contemplados no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody 2009, da mesma Secretaria, com menção honrosa, com os poemas: Pluvial(Goulart) e Hipertexto de Fidelidade (Rafael).

A Feira é uma realização do Núcleo do Livro, Leitura e Literatura da Fundação Pedro Calmon/SecultBa, em parceria com o Teatro Castro Alves e a Câmara Bahiana do Livro (CBaL). No Vão das Letras, os soteropolitanos encontrarão exposição de livros das livrarias RV Quadrinhos e Mídia Louca, além das editoras Grupo Editorial Record, Edufba e os Sebos Cantinho da Pituba e Sebo Praia dos Livros, entre outros. Outras editoras e escritores independentes interessados em comercializar suas obras no local, devem procurar a CBaL para confirmar sua presença.

Biografias - Goulart Gomes nasceu em Salvador. É administrador de empresas, com pós-graduação em Literatura Brasileira e em Gestão de Comunicação Integrada. Fundador do Grupo Cultural Pórtico (1995) e criador da linguagem poética Poetrix (1999). Obteve 65 prêmios em concursos de poesia, prosa e festivais de música e participou de 48 coletâneas publicadas no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália, França e Coréia do Sul.

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA, é advogado, professor, e Mestre em Letras pela UFBA. Publicou os livros Pequeno inventário das ausências(Prêmio Brasken) - poesia; 3 vestidos e meu corpo nu (Ed P55, 2009) - contos. Já participou de várias antologias, e é ganhador de diversos concursos literários.

Lucas Jerzy psicólogo, pós-graduado em Saúde Mental pela FAMED-UFBA. Mantém o blog de crítica cultural O Último Baile dos Guermantes (www.ultimobaile.com). Tem contos, crônicas e poemas premiados e agraciados com menção honrosa em diversas premiações literárias de âmbito nacional como a XX Noite Nacional de Poesia (3º lugar, Campo Grande, MS, 2007), Fundação Cultural de Canoas - RS (1º lugar, crônicas, 2009).

Rafael dos Prazeres é natural de Recife-PE e radicado em Salvador-BA há 20 anos. Professor da língua Portuguesa e graduado em Língua e Literaturas Inglesas, é autor de textos publicados em jornais da Bahia, Paraná e Rio de Janeiro; em revistas universitárias e na internet. No último ano publicou Simbiose, livro de poesia; um verbete no Dicionário de Personagens Afro-Brasileiras.

Serviço:

O que: Feira de Livro Vão das Letras

Onde: No Vão Livre do Teatro Castro Alves – Campo Grande

Quando: Dia 19 de dezembro (domingo), das 12h às 18h

Quanto: Grátis

Contato: (71) 3116-6677

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Diálogos - Panorama da nova poesia grapiúna

Mais conhecida fora da Bahia por conta da obra de Jorge Amado e Adonias Filho, a região Grapiúna, cujas cidades pólo são Ilhéus e Itabuna, onde se desenvolveu o cultivo do cacau, também viu nascerem poetas de fundamental importância para a literatura baiana, como Adelmo Oliveira, Ildásio Tavares, Abel Pereira e Florisvaldo Mattos, apenas para citar alguns.

Calcados nessa forte tradição, uma nova geração de poetas grapiúnas foram apresentados em Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna (Ilhéus/Itabuna: Via Litterarum/Editus, 2009), obra organizada pelo poeta e ensaísta Gustavo Felicíssimo. Aos dez antologiados da primeira edição – Edson Cruz, Heitor Brasileiro Filho, Noélia Estrela, Piligra, George Pellegrini, Rita Santana, Fabrício Brandão, Daniela Galdino, Mither Amorim e Geraldo Lavigne – juntam-se, agora, em segunda edição, mais dois poetas – André Rosa e Marcus Vinícius Rodrigues – dessa vez com sete poemas cada um, contra cinco da primeira edição. São doze poetas (alguns deles bastante premiados) que já estão inseridos entre aqueles que produzem a melhor poesia baiana, quiçá brasileira, deste início de século.

A segunda edição, revista e ampliada, de Diálogos, será lançada no próximo dia 11 de dezembro, às 18 horas, na Academia de Letras de Ilhéus, oportunidade em que haverá um bate-papo com Jorge de Souza Araújo, prefaciador da obra, sobre a poesia baiana contemporânea.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

EVENTOS

TERRITÓRIOS DA FICÇÃO - BRASIL SÉCULO XXI
Auditório Hansen Bahia.

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

CAMPUS II

O seminário TERRITÓRIOS DA FICÇÃO – BRASIL SÉCULO XXI terá início no dia 22/11, das 14 às 17 horas, no auditório da Fundação Hansen Bahia, com uma mesa-redonda sobre o tema Espaços da intimidade na ficção contemporânea, da qual participarão os escritores Állex Leilla e Marcus Vinícius Rodrigues. Serão lançados os livros Primavera nos ossos, de Állex Leilla (romance. Editora Casarão do Verbo, 2010) e Cada dia sobre a terra, de Marcus Vinícius Rodrigues (contos. EPP Edições, 2010) e feitas comunicações pelas alunas Janaína Ezequiel França (O sol que a chuva apagou, de Állex Leilla), Gabrielle Alano Carcavilla (3 vestidos e meu corpo nu, de Marcus Vinícius Rodrigues, e Laços de família, de Clarice Lispector) e Jana Cambuí Alves Lima (Vestígios da Senhorita B, de Renata Belmonte).



FÓRUM NACIONAL DE CRÍTICA CULTURAL 2:

EDUCAÇÃO BÁSICA E CULTURA:

DIAGNÓSTICOS, PROPOSIÇÕES, NOVOS AGENCIAMENTOS

18 a 21 de novembro de 2010

Dia 19/11/2010 (SEXTA-FEIRA) – SEGUNDO DIA

10:30 às 12:30 – MESAS SEMIPLENÁRIAS (MARGENS DA LITERATURA)

Mesa 2 - Local: Auditório do Campus II

Literatura e mídias: agenciamentos e entre-lugares nas configurações de gênero e sexualidades

Coordenador: Prof. Dr. Paulo Garcia (Pós-Crítica/UNEB)
Convidados:

Pesquisador convidado: Prof. Dr. Djalma Thürler (Instituto de Humanidades, Artes e Ciências – IHAC/UFBA) - Dramaturgia e Produção cultural
Personalidade cultural: Marcus Vinicius Rodrigues, escritor
Personalidade da Educação Básica: Állex Leilla (UEFS)